sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O morro que não é mais nosso

As mazelas esperneiam
e o esperma corre as pernas.
É quando o triste fecundador
desiste do mundo mundano – 
um bebê morre anjo
feliz angelical.

As janelas estão fechadas
e os beirais têm rosas secas.
A cidade está de olhos cerrados,
fingindo um sono, talvez embriaguez,
para aliviar a dor.

A luz da tevê ilumina um barraco,
e o cheiro do jantar se mistura
ao pó da casa fechada
em pleno verão.

Os gritos daquelas crianças
estilhaçando as alegrias de infância,
hoje fazem parte da canção de ontem
no vinil velho comido pelo tempo.

O batom que era da camisa de seda
virou sangue de execução na mesma esquina,
onde cantava a boemia
uma vida mais bonita.

Aquela seresta virou faroeste,
e o oeste virou medo no pôr-do-sol –
é quando morre na esquina
mais um inocente trabalhador.

Não há caminho de volta ao lar –
há via crucis no chão de terra batida
onde Cristo podia bem ter caminhado,
não fosse a cruz virar arma branca
pra dar na cabeça de bandido
e de penhora à polícia.

Não há caminho aos novos fecundadores –
o espermatozóide tem medo da missão
e canta assoviando uma musiquinha
sucesso de antigamente,
pra disfarçar sua tristeza
de ter que dizer não.

CRiga.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Drummondear


20 de outubro - DIA DO POETA!

Meu poeta é Carlos Drummond de Andrade. Tentar explicar não dá – só lendo esse mineiro brasileiro de deliciosas escritas.

Minha homenagem aos poetas é em seu nome:


Tudo é
um poema de Drummond.
Um sal diferente
ou açúcar de gente.

Tudo é
um canto desencanto
bonito que dói.
Ou sutileza da beleza
quão incomunicável
que arde o pulso
em busca da quase perfeita tradução.

Tudo é
punhal invisível
contra a alma aberta.
E quem não acerta desconhece
a graça que a poesia tem.

CRiga.




quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Um engano de vida

Na sua solidão de fila no caixa-eletrônico, pensava em relatórios e contas.  “Oi!”, ela disse, tão linda menina. “Não se lembra de mim, não é?”, emendou, logo com um beijinho no rosto. Não se lembrava. “Ah, deve ser os óculos novos...”. Tirou.

Ele ainda franzia levemente as sobrancelhas, como quem se esforçava em tentar lembrar. “Puxa, não se lembra?”, insistiu ela, olhinhos tristezinhos. Os óculos dele, de aros pretos, também eram novos - por isso os tirou pensando estar com a vista atrapalhada.

“Ai meu Deus, me desculpe... pensei que fosse um amigo meu... desculpe”, foi-se, encolhida, correndinha.

Ele ficou olhando ela ir, parado no tempo, esperando um beijinho de volta. Desabou na decepção de se lembrar quem ele mesmo era. Devagar, vagando, colocou de volta os óculos novos, e reafundou-se em sua solidão de filas, relatórios e contas exatas do salário. Tudo consumido no sustento do lar materno, nada sobraria no fim do mês. Nada.

Só a voz da mãe, irritante: “bonitos óculos, meu filho... você ficou muito bem”.

CRiga

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Nota policial, classificado de aniversário

Dedo na garganta e apropriação devida de coisas que não são minhas. Roubo mesmo, se isso me faz bem. Todos eles roubaram de alguém, e ocultaram o crime embelezando a boneca com batom de vinho seco e barato, aquele que escorre no canto da boca de riso artificial na boca plástica manchando a pele feito espancamento pela metade.

E eu espanco mesmo neste dia, arranco sangue, crio clássicos hematomas de inocência. E um texto roubado no final não é nada que não se possa explicar na posteridade.

Enquanto isso, declaro às autoridades ter visto tua foto três por quatro, guardada culpada pelo crime, desbotada na carteira velha - meu coração não é selvagem, é apenas marginal que comete crimes, acusa inocentes e oculta cadáveres.

Inocente? Você foi embora roubando meu disco do Elvis por causa de Suspicious Mind, apropriação devida. Apropriação de vida, pra sobreviver sem mim na marginalidade...

Feliz aniversário, mas vou ter que te matar mais uma vez agora. Deixe que noticiários contem as mentiras, porque a verdade nós dois sabemos: ninguém morreu, meu bem, ninguém. Textos renascem todo dia, e os discos estão voltando à moda. Menos nós, sobreviventes sem graça, grafados perdidos sem valor moral, feitos classificado de jornal...

CRiga



quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Um bom dia para ler


Num belo de um dia
nos invade, feito vento,
sentimento
talvez do mundo
mesmo em guerra,
Raimundo...

É preciso amar a terra,
a Terra
precisa sentir-se amada.

CRiga
(Nov/2001 – tirada da contracapa de “Sentimento do Mundo”, de Drummond)
1º de outubro: DIAdeLER. TODO DIA!, de Barueri. Leia você também!


“O mar batia em meu peito, já não batia no cais.
A rua acabou, quede as árvores? a cidade sou eu
a cidade sou eu
sou eu a cidade
meu amor.”
(“Coração Numeroso”, Carlos Drummond de Andrade)