domingo, 12 de outubro de 2025

O corvo e a gaivota

 


Eu vou exorcizando você de mim
Assim, aos poucos,
Queimando o queixo nos tocos das velas derretidas
Sobre uma cova cujo corpo ainda quente
Me invade sonhos e desejos de compartilhar
O que agora me faz bem.

Água benta aqui é a lágrima selvagem
Contida num dique prestes a romper
Dizimar cidades de mortos-vivos que me acenam
Muito de longe longe
Num escárnio triste e amargo a me capturar o corpo
A alma e qualquer certeza no caminho.

Mas eu vou cavando você de mim
Bem fundo
Às vezes encontro uma pedra e simplesmente deixo
A erosão do tempo fazer a sua parte.

O tempo…

Confiar parece embarcar sozinho numa nau à deriva na tempestade
Sem bússola, sem remos
Os ventos já levaram as velas embora
O céu tão cinza, raios e trovões
Te botam o medo mais filho da puta desse mundo
As primeiras ondas contra tua embarcação, enormes
Quase te derrubam ao mar revolto.

Mas aquela cordinha fina e esgarçada da tua esperança
Te segura de volta ao leme, cuja direção pouco importa agora.
Importante é cortar a fúria das águas geladas

Morrer afogado um pouco, que seja.
Mas acordar com um sol amigo batendo na tua cara
Dando mais um dia pra navegar sem pressa, sem medo
E sem norte
À sorte, mas alerta
“Cuidar da minha vida que a morte é certa”. (*)

CRiga.

(*) Paulo Diniz




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