Guarde este momento
Esta descoberta
Esta esperança
Esta dança sozinho na sala
Pela primeira vez
Só viver de emoções
Que dizem respeito apenas a você.
CRiga.
Guarde este momento
Esta descoberta
Esta esperança
Esta dança sozinho na sala
Pela primeira vez
Só viver de emoções
Que dizem respeito apenas a você.
CRiga.
Gostaria de iniciar esta semana
Com um discurso solene e perene
Sobre como tentar ser feliz.
Mas vamos com calma, minha cara.
Nada é assim tão chatamente namastê
Nem simplesmente esquecer do que acontece.
Amanhã, quando for segunda-feira
Agradeço à rotina que me acorda às 6 da manhã
Mas padeço na falta que um bom dia me faz.
Gostaria de dizer que vai ficar tudo bem...
Vai ficar tudo bem!
Mas o por enquanto me mata todo dia.
Nas manhãs eu mato com prazer
Leões fortes e sorridentes.
Mas à noite
Só me gritam as almas de hienas desesperadas
Esperando uma resposta, um acalanto
Desse tal de Tempo que nunca passa.
Que se faça a semana.
Amor é coisa de gaveta que emperra
E não deixa a porta do guarda-roupas
Finalmente se fechar.
CRiga.
Não,
Os velhos cadernos pode deixar aí
No pó do quarto que vai ficar trancado.
São apenas ilusões de um garoto
Que já não existe mais aqui.
CRiga.
Quando meus livros chegarem
Meus Sentimentos do Mundo,
O pagamento me permitir enquadrar a Janis Joplin
Presente de um velho amigo meu,
Quando na parede estarem o par de quadros
Com os retratos dos quatro de Liverpool
Já cansados de si no Álbum Branco,
A velha luminária de meus avós
Com mais uma gambiarra que você detesta,
Um álbum verde almofadado de fotografias
Da juventude quando eu sorria.
Eu vou pôr tudo na casa nova no seu devido lugar
Parar, contemplar
Cair na real
E voltar, como sempre,
A só querer você.
O que ficou pra mim
Você gentilmente foi buscar.
O que ficou de mim
Você nunca vai imaginar...
CRiga.
Você tem os novos amigos
Tem os velhos amigos
E eu não vou bancar o palhaço decadente
No meio dessa praça pública
Chamada solidão.
CRiga.
Morro, renasço
Corro atrás de um carro na rodovia
Fico para trás, atropelado pelo dia
Aqui onde fico é muito frio, apertado
Eu moro é num coração desabitado.
CRiga.
Vamos então morrer aos poucos
Esquecer-nos nos desabitados cantos
Levar de boa aqueles velhos colegas de repartição
Que sempre só perguntam de você.
CRiga.
Mudei os móveis de lugar
Mas o coração permanece enfincado
No detalhe branco
Daquele canto
Que você deixou.
CRiga.
Ando passando
Por um cursinho de cinquenta
idades.
Sexta-feira o ideal mais puro dos
20
Que fala, escuta, fala e vai
embora.
Sábado a quase chatice
Daqueles 30 de quem acredita que
se encontrou.
Domingo uma sessão de cinema
europeu em São Paulo
E aquele papo de sapiosexual que só
resvala no termo da moda.
E na segunda-feira
Uma idade de quem precisa apenas continuar
Com gente que sabe onde a gente, nunca de fato
Pode apenas chegar.
CRiga.
*Ao som de “Happy When It Rains" - The Jesus and Mary Chain
Ele tem os olhos azuis
Que aplacam todas as minhas tempestades.
E ela tem todas as tatoos dos ideais
Da juventude que conheço tão bem.
CRiga.
Um dia de cada vez
Como me joga na cara o calendário
Afixado na porta da geladeira vazia.
Tem novo aniversário pra marcar
Pra esquecer, pra superar.
Data redonda é manchete pra jornalista
Mas é apenas mais um dia destes meus apenas dias
Da minha energia voltando aos poucos do blecaute.
Um dia de cada vez é necessário
Como me sacode a porra do calendário
Num acorda que tem muita coisa ainda pra fazer.
CRiga.
Falta um olhozinho me encarar de pertinho
Você me dar tua cintura fina
Num agarro de te levantar do chão
Ao final das contas apenas um tchau
Vamos combinar aquele jazz de graça
Na biblioteca do centro de São Paulo
E um encontro na Trianon-Masp do domingo na Paulista
Pagamento à vista no show daquela banda bacana dos noventa
A gente até que tenta, mas de sério mesmo
Só a vontade de se recuperar, se curtir
Abrir os cadernos azuis das almas
E colorir os dias que nos restam dessa juventude
Estampada numa nova camiseta.
CRiga.
Eu não consigo dormir
Preciso da noite pra me manter acordado
E não cair no sono
E sonhar com você
E repetir o ciclo de acordar pela manhã
Morto, torto, perdido
Uma lágrima apenas
Que nunca alivia a dor
Seja ela como for.
CRiga.
Eu procuro na meia-noite
Um motivo pra tentar dormir.
No sono, um sonho que não seja
Com você.
Na manhã, um motivo pra não recair
Pra não chorar, recomeçar.
Durante o dia eu sou o dia
Forte, ensolarado, vibrante e soberano.
Fooodaaa!
E no começo da noite me reencontro
Menino perdido na multidão da festa que continua.
Eu quase choro à procura de uma mãe qualquer.
Daí eu saio, invento compromisso.
Ultimamente vivo disso –
Passar a noite até a meia-noite
Até um motivo pra poder dormir.
As ondas têm tamanhos diferentes
Mas trazem e levam de volta
As mesmas ilusões da areia onde você está.
Cada um no seu cada qual
Já dizia um dos seus ditados de mamãe.
Não existe mais o “vamos dormir?”
Nem o quase nada que restou.
Tem um filho triste no quarto, sabe?
Talvez ele saiba mais que eu
Talvez espere que eu saiba de um conselho.
Segurança é fugaz.
Melhor talvez só pensar no singular.
Eu pedi que você não mentisse pra mim.
Do que resta agora desse jeito é apenas um sinto muito
Só você sabe onde quer e pode e foda-se
Chegar sem mim.
CRiga.
Passou
Já foi
Perdeu o trem.
Eu não.
Tive a sorte de esperar minutinhos apenas
E ainda encontrar um lugar para sentar
E terminar uma poesia.
O coração só dispara um pouco
Quando passa pela estação Carapicuíba.
Mas até o ônibus no terminal ajuda no horário certo
Não dá nem tempo de afiar um pouco mais os versos.
Eu nem queria chegar em casa tão cedo...
Ter ninguém pra compartilhar o bom do dia
O novo rumo que não era pra ser só meu.
Mas eu sei
Você achou mesmo que eu ia desabar...
“A gente é feito pra acabar
A gente é feito pra caber no mar
E isso nunca vai ter fim”. (*)
CRiga.
(*) Marcelo Jeneci
“Eu tenho andado tão só”
“Solidão é coisa de quem fica fazendo fita”
De quem imita um poeta decadente
Deixando o perigo passear rente à pele exposta ao tempo
Ao vento – sem casaco tudo bem
Agora sem vontade de se esquentar é demais.
É que falta uma cintura pra puxar contra a tua
Grudar um rosto quente contra o teu
Um beijo simples ou aquele molhado de desejo
De saudade, cumplicidade ou de um “tchau, até mais tarde”.
É muito ruim sentir-se só assim tão largado à medíocre
multidão
Coração às mãos pedindo um cateter de atenção no corredor de
um trem.
Eu ando precisando tanto de abraços, de bom dias
De devolver sorrisos, amar a simplicidade de ser
Cultivar a saudade que inspira os novos dias.
Eu ando sim me sentindo tão só
Só viajando nos clichês.
Mas acho que solidão
Parece mesmo ser o clássico do catálogo mais prato feito
Dessa simples fome de apenas querer viver.
CRiga.
Eu vou exorcizando você de mim
Assim, aos poucos,
Queimando o queixo nos tocos das velas derretidas
Sobre uma cova cujo corpo ainda quente
Me invade sonhos e desejos de compartilhar
O que agora me faz bem.
Água benta aqui é a lágrima selvagem
Contida num dique prestes a romper
Dizimar cidades de mortos-vivos que me acenam
Muito de longe longe
Num escárnio triste e amargo a me capturar o corpo
A alma e qualquer certeza no caminho.
Mas eu vou cavando você de mim
Bem fundo
Às vezes encontro uma pedra e simplesmente deixo
A erosão do tempo fazer a sua parte.
O tempo…
Confiar parece embarcar sozinho numa nau à deriva na
tempestade
Sem bússola, sem remos
Os ventos já levaram as velas embora
O céu tão cinza, raios e trovões
Te botam o medo mais filho da puta desse mundo
As primeiras ondas contra tua embarcação, enormes
Quase te derrubam ao mar revolto.
Mas aquela cordinha fina e esgarçada da tua esperança
Te segura de volta ao leme, cuja direção pouco importa agora.
Importante é cortar a fúria das águas geladas
Morrer afogado um pouco, que seja.
Mas acordar com um sol amigo batendo na tua cara
Dando mais um dia pra navegar sem pressa, sem medo
E sem norte
À sorte, mas alerta
“Cuidar da minha vida que a morte é certa”. (*)
CRiga.
(*) Paulo Diniz
Dance na sala a só aquela Aretha Franklin que você conhece
tão bem
Cante o refrão à espera do trem, o velho rock que rola no
fone de ouvido
Sorria sempre aos trabalhadores que cruzam seu caminho em
supermercados, guichês e postos de gasolina
Agradeça, puxe conversa, ame os egoístas motoboys e deixe-os
ir embora
Plante gentilezas que a cada manhã hoje cinza
Teu sol renasce um pouco mais amarelinho
Um diazinho de cada vez.
CRiga.
Aos poucos a poesia vai ficando reta demais
E é preciso plantar motivos em cada quebrada de esquina no
centro da cidade
Pra não perder o necessário lirismo que sempre salva a alma
do homem
Do velho precipício da solidão.
CRiga.
Guitarra pesada no passo, ele range e finge reclamar
A falta de lustro na descida da Augusta
Em mais uma noite de bar em bar.
Mas o que resta mesmo no fim é o canto de um quarto
Na madrugada cansada onde o sapato vai descansar.
Lamentar então a sola não gasta
Mais da que o asfalto deixou de gastar.
CRiga.
Não mais te desejar.
Colorir de movimento
O rastro sem graça que você deixou aqui
Preencher com lindos quadros nas paredes
O branco vazio que você não fazia questão
De dar vida e esperança.
Que você seja muito feliz
E me deixe também tentar ser.
Você de um jeito diferente –
Um desejo de seguir pra frente
Porque eu também não ficarei para trás.
CRiga.
Levanta a cabeça
Olha por aí em volta
Solta o refrão do velho rock no metrô
E ensaie aquele tão bem conhecido sorriso da paz.
Choverão girassóis contentes e estrelas cadentes
Vagalumes iluminarão as madrugadas nas avenidas
Mendigos declamarão poemas de Drummond
E bêbados cantarão a letra inteira de um Belchior:
“Ano passado eu morri
Mas esse ano eu não morro”.
CRiga.