Você pensa que te espero
Uma carona num bar
Uma cama quente
De repente não ligo
Não insisto
Não existo
Só a mim me interessa
A pressa de ser feliz.
CRiga.
Você pensa que te espero
Uma carona num bar
Uma cama quente
De repente não ligo
Não insisto
Não existo
Só a mim me interessa
A pressa de ser feliz.
CRiga.
O bom vinho mancha de leve a borda da taça
A solidão também é uma boa amiga
Se vier de mala desfaz logo na sala
E me dá o frio souvenir da tua viagem
Só não vem comigo pro meu quarto
Com esse ar de verão da idade
A vida acontece sem você
O resto é inteiro sem você
Só você não sabe
O quanto fui feliz.
CRiga.
Eu me conheço
Calço as botas letras da minha alma
E vou fundo, a caverna sempre foi escura
Eu busco um sol, um farol
Um pirilampo que seja
Não há certeza muito menos mapa
Apenas um coração guia
D’outro lado, na saída
A cachoeira que brilha.
CRiga.
A hora se arrasta nos ponteiros débeis da solidão
O que me resta senão puxar a corda, a forca
À força arrancar a touca do carrasco
E finalmente encontrar você.
CRiga.
Não se preocupe, eu vou te avisar
Não me preocupo, não precisa me avisar
Me amar, não é o “tanto-faz” –
É o jeito planta seca de sobreviver
Esperar que a enxurrada leve a terra
Até a raiz se replantar.
Carrego comigo a maldição de não ser
Enterrado meio corpo, cova rasa
Na terra úmida e preta o branco dos meus olhos
Te vigia, denuncia a falta de amor.
CRiga.
Eu procuro a mesma energia no pulso
Mas a experiência rasgou meu mapa
Eu me perco na veia que perdeu o violeta
Um cateter enferrujado no caráter fraco
Um buraco largo, profundo
Um vulcão morto
Meu coração bate descompassos
Uma marcha ré.
CRiga.
CRiga.
A gente cansa
Alcança pra mim um novo gole
Me engole de vez
Teria mil motivos pra ir embora
Apenas um para ficar
É o que me vale
É o que me mata
A gente dança
A esperança de um rock inglês
Paga minha fiança, é a sua vez
Minha asa quebrada eu guardo
Debaixo da velha camiseta preta
Não precisa me dizer quando vem
Eu sei que o trem acaba cedo
Eu sei que o medo tem raiz
Na idade que não diz.
CRiga.
É certo que uma hora até aquele amor cansa.
A dança nos terraços vira patética lembrança.
A vida vira o dia a dia do “bom dia”
De um estranho no corredor
E nada mais.
CRiga.
Agulha travada
Na sujeirinha do velho vinil –
Uma nota só no solo triste de uma guitarra
E num grito mixado de solidão.
Meio emeéle
No vidro do perfume francês –
Um cheiro só na fragrância de perder os rumos
Insistindo em guardar lembranças.
Fotografia desbotada
No bolso do surrado jeans –
Uma cor de pó gritando no assoalho comido
Um nome rangido, abafado.
Botão de rosa pendurado
No caule quebrado do abandono –
Plantas revirando em nó o sedento jardim do quintal de pedra
Invadindo a casa, um dia lar.
Morri, revivi
Procurando tolos atalhos
Nas coisas que mofaram
Nos objetos sem objetivos.
Um dia desistiram de mim
Sem me avisar, não foi por mal –
Sexta-feira que vem eu programo
Meu próximo inferno astral.
CRiga.
Correr de volta o teu caminho
Margaridas na calçada.
Recuperar a lucidez do amor
Comprar uma passagem
Pra você me acompanhar.
Não deixar teu cabelo novo
Passar despercebido pela sala.
Não desviar o olhar
Negar um sorriso à facilidade.
Trilhar esta cidade
Em busca de um encanto, que difícil!
Não o ar fedido que sufoca meu filho.
Correr de volta o meu caminho
Um pedido de namoro, rosas e romance
A poesia em meu alcance
Esquecida nos cadernos.
CRiga.
Eu não vi as flores nascendo do asfalto
Que é só onde sei procurar.
Na mesma galeria ninguém me disse nada
Algo que eu pudesse guardar.
Eu não ouvi a música da moda
Nem sou o idiota popular da roda.
Eu sou é o vidro que corta
Em vez do falso brilhante.
CRiga.
Beijava o drops cereja
Com promessas de para-sempre.
Mas o para-sempre perdeu o gosto
E no bolso coube a vida inteira
Dentro da carteira, uma foto desbotada.
Relançaram o drops nesse verão.
E eu não beijei
Só lembrei...
CRiga.
Falta-me o aroma de flores selvagens
Espinho de flor no coração
Gota de sangue manchando o papel.
Se apertar o peito é “crec”
Espremer a alma
Não é lágrima que cai.
Inverno, agosto, falta tempo
Uma nova canção, o fogo da paixão
Falta a tempestade me irrigando
Sementes secas gritam socorro.
Amigo é o aroma do asfalto molhado
Mas a estiagem tão cedo já silencia.
Jardim de terra empedrada
Rosa marrom enrugada
Cheirando a velório sem cheiro
Na gaveta emperrada no coração.
Terra árida vira pedra no chão
Eu prefiro chorar solto no cais
A não sentir nada mais.
CRiga.
Pré-nasci, sou assim sem cabeça
Eu só penso com o coração.
E por isso nem sei se sinto dor
Depende de minha mãe:
Se ela sofre me dói também
E prefiro acabar com a dor;
Se acredita me alivia
E me dá mais um dia.
Quem disse que não a vejo?
Eu vejo sim, o rosto dela
Em mim
E mesmo que eu não saia vivo daqui
Ninguém sai vivo de lá também.
Depende de minha mãe.
Eu não sei nada, nem pensar,
E ela também não, tudo bem –
Só sei que ela quer o melhor pra mim
Só sei que ela quer o melhor pra ela também.
Há melhor no pior, mamãe?
CRiga.
Faca cega não corta palavras.
Há agora apenas um papel amassado
Afixado na porta da geladeira
Com um imã daquele bem brega.
Alma que escorrega...
Hoje desperdicei o fio falando
Sobre o que não vai mudar a vida de ninguém.
Fim de dia e nem precisava nada assim
Tão profundo –
Bastava um mundo onde por um segundo
Se pudesse sonhar ou rimar ricamente.
Há um perdido antigamente...
Não estou mais afiado. Pedra gasta.
Cerveja quente. Coca-Cola sem gás.
Vinil riscado fritando ovo insistindo gritar
Na vitrola mono de uma caixa só.
Um nó na garganta...
O pôr do sol não traz o sorriso de missão cumprida
Porque a louça grita silenciosa na pia –
Apenas o fim do dia.
CRiga.
Há um Brasil que insiste
Invadir minha história de amor.
Trocam-se flores multicores
Pelo amarelo e vermelho –
As flores não ficam tão tristes
Desde os tempos de Vandré.
Trocam-se poemas por discursos.
A carta anônima romântica
Depositada na caixinha do correio
Vira fraca denúncia estampada
Em qualquer página de jornal.
Troca-se perfume por gás lacrimogêneo
Vestido chita por camiseta chiita.
Troca-se convite a um passeio
Por convocação a passeata.
Eu prefiro sim a flor colhida
À morta pisada no canteiro.
Um coração partido
A tomar partido do terror.
Há um Brasil que resiste
Se reinventar histérico
Na minha história de amor.
CRiga.
A língua draga com fogo de dragão
Beijo que chupa a pele do pêssego morno
Ou boca caindo de boca
Na doce manga de estação.
CRiga.