sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Armadilha

 

Você pensa que te espero
Uma carona num bar
Uma cama quente
De repente não ligo
Não insisto
Não existo
Só a mim me interessa
A pressa de ser feliz.

CRiga.


Já é tarde

 

O bom vinho mancha de leve a borda da taça
A solidão também é uma boa amiga
Se vier de mala desfaz logo na sala
E me dá o frio souvenir da tua viagem
Só não vem comigo pro meu quarto
Com esse ar de verão da idade
A vida acontece sem você
O resto é inteiro sem você
Só você não sabe
O quanto fui feliz.

CRiga.


Seja feliz

 

Há vida fora da sobrevida
Insista, mas não minta
Nem pra você.

CRiga.


Uma nova poesia

 

Eu me conheço
Calço as botas letras da minha alma
E vou fundo, a caverna sempre foi escura
Eu busco um sol, um farol
Um pirilampo que seja
Não há certeza muito menos mapa
Apenas um coração guia
D’outro lado, na saída
A cachoeira que brilha.

CRiga.


Drama

 

Faço a cama e não me deito
O sofá está perfeito
Eu aceito, me deleito
Do jeito que tudo está.

CRiga.   


Cadafalso

 

A hora se arrasta nos ponteiros débeis da solidão
O que me resta senão puxar a corda, a forca
À força arrancar a touca do carrasco
E finalmente encontrar você.

CRiga.   


Em outro lugar

 


Não se preocupe, eu vou te avisar
Não me preocupo, não precisa me avisar
Me amar, não é o “tanto-faz” –

É o jeito planta seca de sobreviver
Esperar que a enxurrada leve a terra
Até a raiz se replantar.

CRiga.

Flores de plástico

 

Carrego comigo a maldição de não ser
Enterrado meio corpo, cova rasa
Na terra úmida e preta o branco dos meus olhos
Te vigia, denuncia a falta de amor.

CRiga.


Tinta borrada

 


Eu procuro a mesma energia no pulso
Mas a experiência rasgou meu mapa
Eu me perco na veia que perdeu o violeta
Um cateter enferrujado no caráter fraco
Um buraco largo, profundo
Um vulcão morto
Meu coração bate descompassos
Uma marcha ré.

CRiga.  


Recado guardanapo

 


Eu não vou mais guardar as poesias que faço
Antigamente havia cadernos e bares e amigos
Hoje me bastam um blog mofado
Cicatrizes que ainda sangram
E a espera.

CRiga.

Desatar

 


A gente cansa
Alcança pra mim um novo gole
Me engole de vez
Teria mil motivos pra ir embora
Apenas um para ficar
É o que me vale
É o que me mata
A gente dança
A esperança de um rock inglês
Paga minha fiança, é a sua vez
Minha asa quebrada eu guardo
Debaixo da velha camiseta preta
Não precisa me dizer quando vem
Eu sei que o trem acaba cedo
Eu sei que o medo tem raiz
Na idade que não diz.

CRiga.





 

Arrasta-se a vida

 


É certo que uma hora até aquele amor cansa.
A dança nos terraços vira patética lembrança.
A vida vira o dia a dia do “bom dia”
De um estranho no corredor
E nada mais.

CRiga.


quarta-feira, 27 de agosto de 2025


 

Quarenta

 

Agulha travada
Na sujeirinha do velho vinil –
Uma nota só no solo triste de uma guitarra
E num grito mixado de solidão.

Meio emeéle
No vidro do perfume francês –
Um cheiro só na fragrância de perder os rumos
Insistindo em guardar lembranças.

Fotografia desbotada
No bolso do surrado jeans –
Uma cor de pó gritando no assoalho comido
Um nome rangido, abafado.

Botão de rosa pendurado
No caule quebrado do abandono –
Plantas revirando em nó o sedento jardim do quintal de pedra
Invadindo a casa, um dia lar.

Morri, revivi
Procurando tolos atalhos
Nas coisas que mofaram
Nos objetos sem objetivos.

Um dia desistiram de mim
Sem me avisar, não foi por mal –

Sexta-feira que vem eu programo
Meu próximo inferno astral.

CRiga.




terça-feira, 26 de agosto de 2025


 

Falta-me

 


Correr de volta o teu caminho
Margaridas na calçada.

Recuperar a lucidez do amor
Comprar uma passagem
Pra você me acompanhar.

Não deixar teu cabelo novo
Passar despercebido pela sala.

Não desviar o olhar
Negar um sorriso à facilidade.

Trilhar esta cidade
Em busca de um encanto, que difícil!
Não o ar fedido que sufoca meu filho.

Correr de volta o meu caminho
Um pedido de namoro, rosas e romance
A poesia em meu alcance
Esquecida nos cadernos.

CRiga.



segunda-feira, 18 de agosto de 2025


 

Ele não era um cara legal

 


Eu não vi as flores nascendo do asfalto
Que é só onde sei procurar.

Na mesma galeria ninguém me disse nada
Algo que eu pudesse guardar.

Eu não ouvi a música da moda
Nem sou o idiota popular da roda.

Eu sou é o vidro que corta
Em vez do falso brilhante.

CRiga.



sexta-feira, 15 de agosto de 2025


 

Drops

 


Beijava o drops cereja
Com promessas de para-sempre.

Mas o para-sempre perdeu o gosto
E no bolso coube a vida inteira
Dentro da carteira, uma foto desbotada.

Relançaram o drops nesse verão.
E eu não beijei
Só lembrei...

CRiga.


quinta-feira, 14 de agosto de 2025


 

A gosto seco

 


Falta-me o aroma de flores selvagens
Espinho de flor no coração
Gota de sangue manchando o papel.

Se apertar o peito é “crec”
Espremer a alma
Não é lágrima que cai.

Inverno, agosto, falta tempo
Uma nova canção, o fogo da paixão
Falta a tempestade me irrigando
Sementes secas gritam socorro.

Amigo é o aroma do asfalto molhado
Mas a estiagem tão cedo já silencia.

Jardim de terra empedrada
Rosa marrom enrugada
Cheirando a velório sem cheiro
Na gaveta emperrada no coração.

Terra árida vira pedra no chão
Eu prefiro chorar solto no cais
A não sentir nada mais.

CRiga.



 



segunda-feira, 11 de agosto de 2025


 

Anencéfalo

 


Pré-nasci, sou assim sem cabeça
Eu só penso com o coração.
E por isso nem sei se sinto dor
Depende de minha mãe:
Se ela sofre me dói também
E prefiro acabar com a dor;
Se acredita me alivia
E me dá mais um dia.

Quem disse que não a vejo?
Eu vejo sim, o rosto dela
Em mim
E mesmo que eu não saia vivo daqui
Ninguém sai vivo de lá também.

Depende de minha mãe.
Eu não sei nada, nem pensar,
E ela também não, tudo bem –
Só sei que ela quer o melhor pra mim
Só sei que ela quer o melhor pra ela também.

Há melhor no pior, mamãe?

CRiga.




sexta-feira, 8 de agosto de 2025


 

A louça no fim do dia

 


Faca cega não corta palavras.
Há agora apenas um papel amassado
Afixado na porta da geladeira
Com um imã daquele bem brega.
Alma que escorrega...

Hoje desperdicei o fio falando
Sobre o que não vai mudar a vida de ninguém.
Fim de dia e nem precisava nada assim
Tão profundo –
Bastava um mundo onde por um segundo
Se pudesse sonhar ou rimar ricamente.
Há um perdido antigamente...

Não estou mais afiado. Pedra gasta.
Cerveja quente. Coca-Cola sem gás.
Vinil riscado fritando ovo insistindo gritar
Na vitrola mono de uma caixa só.

Um nó na garganta...
O pôr do sol não traz o sorriso de missão cumprida
Porque a louça grita silenciosa na pia –
Apenas o fim do dia.

CRiga.




quinta-feira, 7 de agosto de 2025


 

Cafajestes

    

 


Eu me vejo manchando o teu vestido de casamento com o vermelho sangue de meu ciúme doentio – calma, sem páginas policiais: apenas a taça do vinho que a gente não tomou porque você estava tão atrasada pro fatídico dia da noiva, eu te dei carona e nem cobrei a gasosa. Então vai meu bem ficar tão lindamente atrasada pra gente brincar de rasgar vestido no ato consumado da festa da tua felicidade muito bem disfarçada pela pesada maquiagem cara, champanhe e padrinhos que gastaram uma graninha besta em presentes pra te ver feliz nas fotos do futuro álbum. Nem aquela cena ridícula de novela das oito existe mais nas igrejas pra eu te condenar, aquela que o padre pergunta se há alguém que tenha algo a dizer contra esse casamento que fale agora ou cale-se para sempre – diria mataram o mensageiro do amor com um tiro certeiro no peito, e, menos poético, teu noivo comeu tua prima por trás na tua cama ainda quente de manhã enquanto você tomava banho, tua família é uma farsa de corruptos e gente de passados duvidosos, você é a única que presta um pouquinho pra uma traiçãozinha nada demais antes do casamento... Mesmo na Santa Igreja não saberia mentir tanto. Casamentinho de merda! Me devolve então a grana Maria gasolina, Maria mãe de um deus que não acredito, Maria vai-com-as-outras-foi-comigo, ah, Maria! Eu te amaria tanto se você não dissesse sim, carregaríamos garrafas pelas ruas e cairíamos esquinas pelas noites sem fim até que alcançássemos a cama mais uma noite, a gente gritando urros de prazer na madrugada até o amanhecer te chamar praquele empreguinho de merda e o meu eterno vagabundear fingindo trabalhar numa redação de jornal. E só te trairia com escritos mais românticos, não marginais. E você se ofenderia. E por vingança finalmente se casaria, certa de querer ser eternamente infeliz.

CRiga.



quarta-feira, 6 de agosto de 2025


 

Militância de flores

 


Há um Brasil que insiste
Invadir minha história de amor.

Trocam-se flores multicores
Pelo amarelo e vermelho –
As flores não ficam tão tristes
Desde os tempos de Vandré.

Trocam-se poemas por discursos.
A carta anônima romântica
Depositada na caixinha do correio
Vira fraca denúncia estampada
Em qualquer página de jornal.

Troca-se perfume por gás lacrimogêneo
Vestido chita por camiseta chiita.
Troca-se convite a um passeio
Por convocação a passeata.

Eu prefiro sim a flor colhida
À morta pisada no canteiro.
Um coração partido
A tomar partido do terror.

Há um Brasil que resiste
Se reinventar histérico
Na minha história de amor.

CRiga.