quinta-feira, 31 de julho de 2025


 

Não mais a gente no sofá

 


Polir os discos que ficarão pra você.
É bom lavar de vez quando.
O tempo junta pó nos sulcos
Risca solos de guitarra
Apaga sorrisos de fotografia.

Ensinar a ligar a vitrola.
Não é legal colocar no automático.
A alma vive do preciso exercício
Até a faixa certa
Até o ponto G.

CRiga.     




quarta-feira, 30 de julho de 2025


 

Até que o pecado santifique

 


Ainda contigo na memória do coração
Desafiei a bruma por onde você se esvaiu
Amaldiçoei o teu caminho, mas segui teu rastro
Até a porta do inferno que você fundou.

E fugi, assustado e inconsequente
Feito criança que tem medo de dizer
Que se apaixonou pela professora mais bonita
E sonhou com o beijo proibido
Atrás do muro da velha escola.

Ainda contigo nas retinas da minha alma sem luz
Eu vi você prometendo voltar vestindo branco
Num dia claro, na chuva confortante
De uma primavera diferente.

Até lá vou confiar na sorte como bom cego
Confiar no teu sorriso que me alivia o ego
Confiar no teu caminho
Que ainda não confia em mim.

Até lá vou assassinar noites sem fim
Procurando acertar a rota brusca
Que um anjo de asa quebrada me cantou
Num sorriso amarelo de pesar.

Até lá vou estar meio vivo, meio morto
Torto mensageiro das sujas esquinas
Aborto das emoções baratas
Nas portas dos bares, nos ares de inverno
Nos portões do inferno da grande cidade.

Até lá terei o que me resta, pouco
Uma fotografia desbotada
Uma carta já borrada
Com promessas de para-sempre.

Até lá poderemos ser os mesmos
Ou mesmo tão iguais
Que não valha a pena um dia novo
Não valha a cena de cinema
Não valha o beijo guardado
Com sabor de mofado morango.

Não quero ser o mesmo.
Quero não mais errar na estrada
Quero não mais fugir de casa
Nem me calar frente aos acusadores.

Quero roubar a rosa do jardim da escola
Beijar sim a professora mais bonita
E sair com ela pelo portão da frente
Desafiando os olhos da multidão.

Quero uma primavera sem tanta chuva
Uma tarde na praia nova do antigamente
E o mesmo sorvete de morango
Mas com creme e um copo d’água.

Quero a redenção dos anjos tortos
A rejeição da moda, a hora de dormir
Quero amar como sempre
E nunca amei.

Quero que você entenda
E não apague a vela que acendi
Ao lado de teu leito eterno
Que fundei pra resistir no tempo.

E até você voltar de branco
Feito santo desafiando a santidade
Serei cordeiro sem missão
Pedreiro sem próprio chão
Ópio de soldados mutilados
Ronco do trovão
Chuva de domingo
Sono sem sonhos
Pesadelo sem dormir
Paz de cemitério
Etéreo
Vampiro
O tiro no mensageiro
O letreiro de azul neon
Da boate no centro da cidade.

Quero que você volte da fumaça calma
Após o incêndio do lar que não deu certo
Quero estar por perto
Dar-te não o vinho que guardei
Mas o beijo santificado do caminho
Onde pequei sem tempo
E te esperei sentado
Com um novo verso.

Um verso que finalmente
Será de amor.

CRiga.




sexta-feira, 25 de julho de 2025

sexta-feira, 18 de julho de 2025


 

Black Sabbath – Vol. IV

 


Simplesmente o disco que mais amo do Sabbath!

CRiga. 

Da série "Discos que Marcaram"
Dos “Representantes Hors Concours”


Escravo de um perdão

 


Eu não tenho coragem
Pôr a prova
Não que eu seja covarde
É que eu te amo
Eu não tenho bagagem
Nem a hora correta
Não que eu esteja perdido
É que só tenho amor
Essa bússola quebrada cravada no peito que sangra os impropérios
Que se calam quando você grita, ofende, joga, assassina.

Eu não tenho dinheiro nem moral, eu sei
Nem lugar para ficar.

O que eu tenho é uma couraça gasta pelo tempo
A ponto de amassar por dentro, lâmina afiada
A ponto de cortar o ponto que nos une
Bem na veia violeta sangrando o perdão
Que você esqueceu de coagular.   

CRiga.




Jukebox

 


A paz existe
Talvez acoplada
Entre as pernas de uma virgem.

Talvez aplacada
No azul severo de um vestido chita
Esvoaçando na areia à lua cheia.

Talvez embriagada
No verde dissonante de um olhar
Desviando brilhos da malandragem.

Talvez já muito próxima do fim
Numa canção em fade out
Até a lúcida surdez corrosiva.

Até a incapacidade de recriá-la
Na moeda, mais bonita
Numa nova história que é de amor.

CRiga.




quinta-feira, 17 de julho de 2025

sexta-feira, 11 de julho de 2025


 

The Who – Quadrophenia

 


Comprei quando eu era office-boy, na Paulista. Indicação de alguém. Fantástico!

CRiga.

Da série "Discos que Marcaram"
Dos “Representantes Hors Concours”


Ele não era um cara legal

 


Eu não vi as flores nascendo do asfalto
Que é só onde sei procurar.

Na mesma galeria ninguém me disse nada
Algo que eu pudesse guardar.

Eu não ouvi a música da moda
Nem sou o idiota popular da roda.

Eu sou é o vidro que corta
Em vez do falso brilhante.

CRiga.



quinta-feira, 10 de julho de 2025


 

Neil Young - Decade

 

Uma coletânea que disseca Neil Young e conquista qualquer um! Fantástica!

CRiga.

Da série "Discos que Marcaram"
Dos “Representantes Hors Concours” 

Pau oco

 

No meio da praça penitência
Na silenciosa romaria
À escadaria da catedral,

Não me bata a carteira
Não me roube a certeza
Que o meu tempo já passou.

Na via crucis ainda há uma oração
Que precisa seguir cega, sem rancor.

Tire sua juventude do meu caminho
Que eu quero passar, muito devagar.
Quero te comer com os olhos
Aqui do alto do meu andor.

𝐂𝐑𝐢𝐠𝐚.



terça-feira, 8 de julho de 2025


 

The Rolling Stones – Sticky Fingers

 


O disco mais rock and roll de todos os tempos!

CRiga.

Da série "Discos que Marcaram"
Dos “Representantes Hors Concours”


Tristeza

 

Desfila sorrateira
Às vezes montada no cavalo
Do duro monumento no Ibirapuera.
Ou estampada nos olhos do anjinho
Da cafona fontezinha do bulevar.

É uma respiração profunda
Tentando dar ritmo ao dia
E ao coração cansado.

Câmera lenta, você tenta engolir
É café amargo amanhecido.
Um drama de atores sem fama
Uma cama que não quer te largar.

Pousa nos teus ombros as mãos pesadas
Enquanto em frente a um computador
Você se pergunta como se deletar dali.

Marca com as unhas pretas por dentro do peito
Feito prostituta velha, bruxa fedida.
Gata preta no cio te gritando
Lá no fundo da cabeça que pesa bigornas.

Beija sabor sangue, congela o estômago
Amarga a garganta, chuta os testículos.

Sopra um vento polar na nuca
Parece que nunca existiu verão.

CRiga.




segunda-feira, 7 de julho de 2025


 

Pink Floyd – Wish We’re Here

 

O primeiro álbum que comprei do Floyd. 

CRiga.

Da série "Discos que Marcaram"
Dos “Representantes Hors Concours”


Militância de flores

 

Há um Brasil que insiste
Invadir minha história de amor.

Trocam-se flores multicores
Pelo amarelo e vermelho –
As flores não ficam tão tristes
Desde os tempos de Vandré.

Trocam-se poemas por discursos.
A carta anônima romântica
Depositada na caixinha do correio
Vira fraca denúncia estampada
Em qualquer página de jornal.

Troca-se perfume por gás lacrimogêneo
Vestido chita por camiseta chiita.
Troca-se convite a um passeio
Por convocação a passeata.

Eu prefiro sim a flor roubada
À morta pisada no canteiro.
Um coração partido
A tomar partido do terror.

Há um Brasil que resiste
Se reinventar histérico
Na minha história de amor.

CRiga.



domingo, 6 de julho de 2025


 

Deep Purple – Come Taste The Band

 

Ouvi pela primeira vez na casa do Elmo, e perdi o preconceito da fase Coverdale/Hughes.

CRiga.

Da série "Discos que Marcaram"
Dos “Representantes Hors Concours”


Morrer de amor num filme de ficção

 

Vou quebrar os teus cristais
Rasgar o teu retrato.

Amaldiçoar o teu nome
Dizer mentiras sobre ti.

Roubar as chaves da tua casa
Queimar a tua casa!

Vou passar pelo beco escuro
Negar a esmola, olhar com pena.

E finalmente
Não irei ao teu enterro.

Porque ao lado do teu eterno leito
Enterrado há muito muito tempo
Eu já estarei lá te esperando
Com flores e um novo roteiro
Pra juntos a gente encenar.

CRiga.
(Caderno Azul, 1997)





sexta-feira, 4 de julho de 2025


 

Led Zeppelin – Physical Graffiti

 

Poderia escolher tantos outros - mas este me prendeu de forma diferente à época, por conta dos vários tipos de som do Led nesse disco.

CRiga.

Da série "Discos que Marcaram"
Dos “Representantes Hors Concours”


Retórica operária

 

É o ponto que mesmo o ateu
Dá graças a Deus
Por ter um prego pra martelar.

Teme até ser castigado
Pecado reclamar.

CRiga.

quinta-feira, 3 de julho de 2025


 

Rush - “A Show Of Hands”

 

Foi aí que comecei a gostar de Rush.

CRiga.

Da série "Discos que Marcaram"
Dos “Representantes Hors Concours”


Adolescência

 

Viajava sem rumo pela memória
De um coração que já é não meu.

Viajei dancei fiquei
Namorei traí galinhei
Sofri
Ah, como sofri!...

E me arrependi.
Só que era tarde...

Voltei.

 Eu fui sem guia, muito certo,
Ao teu inferno que fundei.

Não te encontrei
Eu fui embora.

Eu fui a hora de me tornar alguém.

CRiga.




quarta-feira, 2 de julho de 2025


 

PINK FLOYD - “DELICATE SOUND OF THUNDER

 

Quando ouvi pela primeira vez “Wish We’re Here” ao vivo, adolescente, na rádio Transamérica, e gravei num K7, me apaixonei pela música sem conhecer quase nada de Floyd. Demorou pra descobrir o nome da música e onde estava – achei no “Delicate”. Foi minha iniciação em Floyd.

CRiga.

Da série "Discos que Marcaram".


Parada à tarde

 

Letras escadas eu subo
Eu corro, mais alto ofegante
Olho pra trás e confiro:

Não te disse que te amo
Que te chamo
Que não rimo com robô.

Amar-te agora parece apenas
Lavar a pouca louça que nos resta.

CRiga.