terça-feira, 19 de outubro de 2021

Não deixe aquela ideia de poesia morrer

 


Está ali, ao lado do sofá
que a gente já não curte mais.

Cerca, entrou no vaso vazio
preciso comprar uma flor.

Mata, correu pra trás da cama
não durmo nunca mais com você!

Está no quarto das crianças, brinca
elas vão correr atrás de você também.

Não deixa passar pela sala sem perceber
fiz meu cabelo só pra você.

Não joga fora assim
você pode me machucar.

Queima então
mas dois peguinhas só.

Desarma a ratoeira
não precisa mais depois de tanto tempo,

faz tanto tempo que te amo!

CRiga.


segunda-feira, 18 de outubro de 2021

As horas que encolhem

 


Eu poderia morrer daqui a pouco.
Escrever uma canção de amor.
Tomar uma xícara de chá.
Esperar. Não sei bem o quê.

Viveria na marra, amarrado.
Não te daria o céu, meu bem,
nem usaria adoçante em vez de açúcar
até a hora de esquentar o teu almoço.

Quando moço eu tinha uma luz,
cantava o que viesse sendo bom.
Bebia nas esquinas, amigos meus
esperando de novo a nova noite.

Eu poderia ter morrido ontem,
mas antes eu escrevera sobre o amor.
Deixei de beber leite para crescer,
as horas encolhem. São 45 do segundo tempo...

CRiga.


domingo, 17 de outubro de 2021

Alma do tempo

 


João pergunta a Maria:
“O que temos para comer?...”
Maria, seca no olhar, responde:
“nada, não, João...”

Eis que os olhares encontram
o brilho da colher polida.
Presente de casamento
de um amigo que morreu solteiro,
sem pai nem mãe,
sem ninguém pra dividir a dor.

E eis que fala Maria a João:
“Te amo, mesmo assim...”
E João, molhado o olhar, responde:
“Te amo também, pra sempre!...”

CRiga.


sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Blues do quase abandono

 


As cadeiras e bancos estão se acabando.
Ficam tão sozinhas e sozinhos
que tão bem acompanhados.

O fogão era vermelho vermelhão.
Trincou saudades tuas um braço na panela
outro na cintura senhora cozinheira.

Dá dó quando junta pó.
Quando o nó não desata mais
e as teias viram só algodão doce.

Aquele pé de fruta esperou a água.
Na pedra da fonte o escorpião estátua
denuncia sua espera quando o sol nos salvou.   

Mas a lebre tá sempre ali!
É o espírito da terra que te olha
sorri pululando boas histórias.

Vem pro mato,
que a morte espreita!

Vem logo, deita.
O pau velho que segura a cama
ainda declama um final feliz.

CRiga.



quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Treze de outubro

 


Não levarás tua eletrobanda.
Deixarás n’água furtada calado o pecado
que dominas dedilhando um rock and roll.

Não levarás o mergulho de ponta.
Deixarás de novo o musgo vigiar teus pés
enquanto dominas a arte de calcular emoções.

Não levarás a tinta pra pintar de azul.
Apenas interiorices pra salvar o orçamento
de colorir janelas com vistas ao infinito verde.

Não guardarás tudo.
As coisas ficarão em seu lugar.
O amor toma conta dos detalhes.

CRiga.



terça-feira, 12 de outubro de 2021

Massa de manobra

 


Um punhado de gente sem cultura.
Uma xícara de assunto polêmico.
666 colheres de malícia.
Uma pitada de maledicência.

Junte tudo e bata em alguém.
Deixe o fermento da fome fazer crescer
e leve ao fogo da intolerância.

Deixe assar reputações,
depois grelhe no fogo das vaidades
e cubra com uma boa verba de jornal.

CRiga.


segunda-feira, 11 de outubro de 2021

O circo pelo pão

 


Tem que gostar,
fingir gostar
ou forçar-se a gostar.

Como a fotografia não mente
todos sorriem e se abraçam pra lente,
num mundo perfeito de flashes
e notas sociais.

Nesse circo,
ao lado da querida autoridade paralisada,
os pobres desdentados também sorriem
seu momento de glória maior.

Na manhã seguinte
apreciam as notícias do dia –

uns com seus brioches
rindo e falando mal,

e outros com o pão de ontem
trocado por foto
na coluna do jornal.

Tudo parte
desse grande teatro social.

CRiga.