quinta-feira, 4 de março de 2021

Incidente na estação

 


A vida te dá o sinal que vai cobrar.
O sino vai tocar, dobrar a aposta.
O trem certamente vai partir um coração.

Eu me meto num metrô pra te encontrar.
Me meto na tua vida no dia da mudança.
O trem sempre alcança quem espera.

Dá um sinal de vida, um final de noite.
Um toque na rede social? Abraça!
Meu trem vai direto ao desejo da caça.

Meu desejo de verdade
é que a validade do teu voucher de volta
caia no dia da notícia do trem que parou:

alguém que se matou nos trilhos
esperando por amor.

CRiga.



quarta-feira, 3 de março de 2021

Me espera pra dormir

 


O ócio é o negócio,
o que era música final
virou o coro da introdução.

Maria não é nada fedida,
tem aroma de hera verde
muito mais sábia que você.

O dócil se conforta em sua loucura,
não enlouquece e não leva ninguém junto –
ninguém merece mesmo aquela sua sanidade.

A Maria Fumaça é guiada por Joana
na viagem pra Santa Paz.

Só me espera que tenho medo
de ficar sozinho na estação.

CRiga.  




terça-feira, 2 de março de 2021

Algoritmos ditam ritmos

 


Coração às vezes descompassa no pânico.
Sistema binário agora
é só uma questão –
morrer ou sobreviver.

Então um bom médico nerd
receita o remédio que reconecta
aqueles seus neurônios desgastados.

Algoritmo agora
é o rito do tomar a pílula.

CRiga.



Falta-me

 


Correr de volta o teu caminho
margaridas na calçada.

Recuperar a lucidez do amor
comprar uma passagem
pra você me acompanhar.

Não deixar teu cabelo novo
passar despercebido pela sala.

Não desviar o olhar
negar um sorriso à facilidade.

Trilhar esta cidade
em busca de um encanto, que difícil!
não o ar fedido que sufoca meu filho.

Correr de volta o meu caminho
um pedido de namoro, rosas e romance -
a poesia em meu alcance
esquecida nos cadernos.

CRiga.



segunda-feira, 1 de março de 2021

Eu sou um velho palhaço

 


Muitas já foram as histórias de palhaços apaixonados. Aqueles que já sem a maquiagem vão à porta do circo esperar a amada, que passa lotada dizendo “que palhaço idiota”. E assim nasceu a lágrima desenhada junto à tinta colorida de um rosto que preferirá sempre esconder a dor.

Eu não espero que você me ame. Pra ser sincero, nem que você ria. Tentei ser mágico só pra poder usar smoking preto, mas o coelho da cartola mordeu meu dedo e riram de mim do mesmo jeito. Tentei acrobacias no ar, caí na rede e depois, de ricochete, no chão de pó de serra. Até o leão nem se moveu quando fui eu o domador.

A dor do palhaço ninguém vê – afinal, a ideia é ver só alegria mesmo. Pobre palhaço, não pode nem se apaixonar! Fora do circo anda de bar em bar, ainda colorido, descolando um trago aqui outro ali, até cair embriagado na sarjeta e crianças chutarem seu traseiro de manhã. Hora de ser sombra.

Minhas rugas não somem mais com a maquiagem. Agora nem minha dor. Meu número no picadeiro mudou – uma tragicomédia que ninguém entende. Ninguém mais ri. Enfadonho espetáculo, eu me equilibro nos minutos e meu olhar vago denuncia a falta de saco de fazer criança rir.

É quando vê o milésimo amor da sua vida lhe sorrindo. Pula, sacoleja, cambalhota, grita. As risadas reaparecem. Ele é o palhaço do cartaz novamente! Vem a sirene, o balde de água na cara, deveria acordar do devaneio incontrolável, mas algo de arte ainda o move. Ou seria amor?

Eu te amo, você não vê nestes olhos? Não, volte pra trás, ainda tenho truques pra te conquistar. Quem é esse rapaz loirinho do seu lado? Porque você tá de mãozinha agarrada com ele? E esse beijo, não era pra ser meu? Volte, mata essa bicha louca do caralho e vem que a gente foge com o alazão do circo!... Sua puta!...

Muitas já foram as histórias de palhaços apaixonados. Poucas aquelas que deram certo. De volta ao camarim de terceira grandeza, dois por dois, um balde d’água e um espelho trincado, já nem mais chora as desilusões de cada noite. O dono do circo lhe dá a mixaria da quinzena e mais uma bronca: “um espetáculo mais esquisito que o outro. Se endireita, seu palhaço velho!”

Eu sou um velho palhaço.

CRiga.



quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

O refúgio despertou meninos

 



Você ensaiava “A Day In The Life”
na nova guitarra usada, volume alto,
naquele mezanino da futura memória.

Você na salinha enfrentava aula on-line,
e eu com medo do quase te perder
mais uma vez asmático em meu colo.

Vi meu rock te rolar pra mim
no solo que o apartamento não permitirá.

Ouvi tua vontade de mergulhar de ponta,
a piscina estava apenas meio cheia
e nós cheios desse pandêmico dia azul.

Meninos, eu vi.

Brincadeira virar música,
séria brincadeira.

E aquela falta de ar que doía
agora é essa força toda de ajudar.

Eu ouvi as notícias de hoje, meninos:

um era um músico na guitarra,
o outro era uma garra no olhar.

CRiga.





quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Inspiração

 


Há noites de gente querendo gritar.
Invocar poesias de dentro do ar.

Simplesmente noites.
Vontades
e um desejo de declarar amor.

Noites simples.
As cidades são diferentes.
Saudades podem ser iguais.

Há noites de gente querendo dormir.
Sonhar poesias
que o sol não ousa recitar.

Boa noite!
No açoite da palavra,
sono é pena-sentença no tinteiro -

Durma a noite que te merece.
Acorde o dia 
que você pretende fazer inteiro.

CRiga.