segunda-feira, 6 de março de 2017

Tristeza de outono


Fisgadas nas já pesadas asas molhadas,
o oceano negro louco tenta te engolir
no voo contra o vento-tempestade. 

Pangaré casmurro, o coração
cavalga um pulso manco
sobre as geleiras de um apocalipse.

Araponga louca que chora alto
no corredor vazio da cabeça bigorna,
a testa suada se arrasta no asfalto.

Chuva grossa que afoga a alma,
o abrigo implodiu, o sapato furou,
o outono e sua faca cortante na noite.


CRiga.


sábado, 4 de março de 2017

Alma rota


Eu enfio o papel amassado de minhas memórias
na nova-velha bolsa preta da Calvin Klein –
há anos tenho onde guardar tanta tralha.

Esconder
o que não quero nunca mais ser.

Redescobrir
uma poesia esquecida, amassada,
minha alma rota nos porões.


CRiga.


Saudosismo


Quem imaginaria o dia
eu agora à meia luz
do balcão que come os vinis usados,
debruçado, ouvindo sim
uma velha canção?

Quem compraria vinil usado?
Quem à meia luz de qualquer balcão
tinha à geladeira a cerveja gelada
pro resto da madrugada?

Quem sentiria saudades de um disco?
Eu insisto, coloco na vitrola
e nunca me imaginaria
eu hoje no final do dia
sentindo saudades
de mim mesmo.


CRiga.


sexta-feira, 3 de março de 2017

Paranapanema


Saber dos mistérios, não há nada
tão misterioso assim:
eu vi o rio me querer
a cidade me expulsar
quarenta vezes.

Coisas do ficar velho
perder o sono, eu dispenso.
Há uma cama mais macia
uma noite mais tranquila,
mas o dia lá também me atormenta
por enquanto.

Vida é esta o que te acontece,
e ter vontade é ter quase tudo.
Eu vi o rio querer-me inteiro
a cidade me dando adeus com os olhos
mais de quarenta mil vezes.

CRiga.


quinta-feira, 2 de março de 2017

Pós-carnaval


Não olhe pra mim, não me sorria.
Não há sol nem sina
e eu não espero mais sinais.

E não é porque eu quero festa –
o que me resta é a festa do silêncio
tripudiando sem serpentina.

Me resta a resignação, o medo,
este enredo já perdeu vários carnavais.

Eu não tenho fome, quero ter o sono
tranquilo dos bons trabalhadores.
Eu não tenho voz, quero ter histórias,
minhas memórias já não servem mais.

Eu não sei sambar.
Levo mais jeito pra eremita
do que folião na alegria
de qualquer carnaval.

Eu quero pouco dessa vida,
e sei mais o que não quero:
eu espero conquistar a paz
que não apenas aquela
roubada dos carnavais.


CRiga.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Pré-Carnaval


Eu não entrei no clima,
eu já sou as cinzas da quarta.
Será que o assassino do Rei Momo
me deixará sorrir em sua onipresença?

Ele me toma a alma
a calma, a rima rica.
Áspero, vaidoso, soberbo,
mas não sai de fantasia.
Noite e dia
martela o coração do folião.

Eu nem espero samba
nem suor nem cerveja.
Apenas a certeza
que a paz ainda pode existir...


CRiga.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Passeio pelo Ibirapuera


Um passeio pelo Paço,
um tropeço não é nada.
Paciência no passo, rapaz,
porque o passado é fugaz.

Um passeio assembleiano,
um momento, por favor:
desacelere o passo, me dê espaço
porque o passado será fútil.

É um passeio apenas,
não tropece em você...
Pedras serão pedras, elas passam,
e o passado será apenas
a pedra do mais belo monumento
num passeio pelo Ibirapuera.

CRiga.