terça-feira, 6 de outubro de 2026
Lá vem o sol
Eu escuto um som daqueles, um Beatles de antigamente, um
Beatles da segunda fase. E o antigamente vira agora, a hora que eu queria ir
pra escola...
Eu era moço de família careta, ia à missa todo domingo, camisa branca debaixo da calça, lição em dia, nem pensar em poesia - papai condenava, mamãe não insistia.
Lia era loirinha, pele eternamente bronzeada, filha de hippie, e a escola nem mais ligava pra camiseta por cima da saia que não era a do uniforme – eram os tempos mudando. Ela ria bastante, ria muito, e eu me perguntava por que eu não ria também. Ela brilhava muito, tanto. E eu me perguntava por que as estrelas que eu via do meu quintal não eram tão brilhantes quanto era vê-la sorrir assim.
Papai chegava a cada quinze dias com aquele uniforme militar, mamãe preparava comidas e orações à mesa enquanto a tristeza era disfarçada de família modelo da classe média.
E eu só pensava em Lia... Passei a esperar a hora de ir à escola, apenas para sorrir com sua risada lá do canto da sala, de onde eu me escondia. E um dia, do nada, Lia virou o rosto - me pegou sorrindo com seu rindo. Eu me enrubesci, queria morrer encolhido verminho de laboratório na aula de ciências.
A sirene deu o final da aula, eu agradeci. Cabeça baixa, arrumei rápido meu material e quis partir, e Lia na minha frente me impediu passagem. Esperou pacientemente eu tomar coragem e levantar a cabeça zonza de vergonha.
– Não precisa fugir - ela disse, com um sorrisinho lindo.
– Não estou fugindo - respondi, com sorrisinho no canto da
boca.
– Você está mentido.
– Não estou fugindo - eu já sorrindo.
– OK. Não está fugindo. Mas está sorrindo. Pronto!
Perguntou meu nome e respondi, já naturalmente. Disparei a falar, mesmo coisas que ela não perguntara. Ela falou muito também, fomos conversando até o portão da escola. Era a hora de cada um pro seu caminho.
– Tchau, até amanhã - ela disse, como sempre, sorrindo.
– Tchau, até - respondi, braço parado no ar, vendo ela virar
a esquina.
Foi o dia mais feliz da minha vida. Voltei para casa radiante. Entrei correndo pelo portão de casa, livre, sorridente, abri a porta com tudo, e tchum: papai falava sério, mamãe chorava. Papai pegou mais malas do que de costume, olhou pra mim seco, como de costume, e saiu sem deixar falta – como de costume. Mamãe chorava e eu não sabia por que. Muito tempo depois eu descobri – chorava não o vazio que papai deixara, mas da vida que ele roubara.
Papai fora embora, ainda era o dia mais feliz da minha vida.
Dia seguinte, a mesma vontade louca de ir pra escola. Era hora! Fui correndo, não me aguentava em mim de vontade de ver Lia sorrindo. E lá no portão da escola ela estava, conversava com amigas, e me viu chegando.
– Pra que a pressa?
– Tou atrasado - primeira coisa que me veio à cabeça.
– Quinze minutos antes? Você não sabe mentir... - leu em
minha testa.
Qual não foi minha surpresa quando ela pegou na minha mão e disse: “não se preocupe”. Aquele dia não assisti a aula alguma, porque ela me levara àquela velha praça da esquina, um banco de jardim e uma mangueira que nunca percebi tão bela, não fosse Lia comentar, com poesia nos olhos. Naquele instante, percebi: Lia havia me capturado definitivamente.
Ficamos bem perto de uma loja de discos. Acabara de chegar o mais novo dos Beatles. E enquanto isso, não sei por que, eu falava do meu pai indo embora, já era hora, na sua secura de militar com mil amantes, e minha mãe chorando no sofá da sala, e um adeus pra mim, ainda bem, porque eu diria ‘ainda bem que vai embora’, e poderia ganhar um tapa na cara que nem naquele dia quando derrubei refrigerante na sua mesa, ou mesmo quando eu cantava alto uma música dos Beatles da primeira fase bem no meio de sua santa biblioteca intocada, o cemitério da família.
No meio do meu repertório demais real, eu nunca tinha visto Lia tão quieta, prestando atenção em tudo, sorrindo aquele riso de paz misturado à menina por quem me apaixonei muito muito tempo antes de parar na minha frente, e eu dizendo tudo aquilo sem medo nem vontade de me tornar aquele verminho da aula de ciências.
– Eu gosto de você também – Lia me respondeu, com um brilho no olhar que nunca me esqueci.
Simplesmente, nos beijamos. E aquela tarde já eterna era perfeita, enquanto ouvíamos George Harisson dar um toque de esperança às fraquezas humanas, anunciando um amor não anunciado: “Here come the sun, the smiles returning to the faces/ Here comes the sun, And I say it's all right”.
Voltei pra casa boiando de felicidade, já não tão rápido demais. Só desabei quando vi, em frente de casa: um caminhão de mudanças levava todas as nossas coisas, mamãe dando ordens, homens carregando móveis. Não tive forças pra fazer mamãe mudar de ideia, e sabia não ter nem o direito de fazê-la ficar naquela casa de vidas secas. Era a sua vez, ela era ainda jovem, e os tempos eram outros.
Não tive nem como dizer adeus a Lia, e enquanto partíamos com o caminhão nos seguindo, eu a procurava em todas as esquinas pra acenar, pra gritar que voltaria pra ela nem que não houvesse mais Lennon ou McCartney, esquinas, praças com mangueiras, escolas. E naquele momento louco, eu a via em todas as esquinas, e ela não estava em nenhuma delas, talvez apenas estivesse em seu quarto, olhos brilhando no espelho esperando o dia seguinte pra gente se ver. Eu talvez nunca saberia.
E a gente não se viu. A gente era um nunca mais cravado na agulha do disco riscado - algo impedia a música de simplesmente continuar, parou num solo, não era simplesmente virar o lado ou trocar de disco e continuar a vida. A música cessou feito “Let it Be” com os Beatles, o sonho tinha mesmo acabado...
Tempos depois mamãe comprou o Abbey Road na casa nova pra renascer. E a cada vez que ela ouvia pra renascer, eu morria um pouco me lembrando de tudo que deixei pra trás. Nem soube se Lia me esperou no portão da escola de novo, nunca soube se me odiou, se chorou saudades, ou se sorriu o mesmo sorriso de brilho - porque pra ela sempre foi tempo de brilhar.
Cresci, comecei a trabalhar, deixei o cabelo crescer como Lia tinha dito que seu pai era. Seu pai perfeito, amigo, companheiro, inteligente, fã dos Beatles da segunda fase. Comprei todos os discos depois de Sgt. Peppers, só pra tentar sorrir como Lia sorria. Mas não conseguia...
Pelo menos o emprego, como já “antigamente” na escola, era a hora mais esperada: eu vendia discos. Os Beatles já haviam se separado há um bom tempo, e tocar qualquer deles já não vendia tanto assim. Numa sexta-feira, quase na hora de fechar, naquele final de tarde brilhantemente melancólico, o sol indo embora por entre os prédios naquela avenida sem movimento, desafiei moda e gerente e rolei o demodê Abbey Road.
Viajei sozinho no balcão. E eu escutava um som daqueles, um Beatles de antigamente, um Beatles da segunda fase. E o antigamente era o agora, a hora que eu queria ir pra escola...
...quando ouvi do meio das bancadas dos discos, uma vozinha cantarolando, acompanhando George Harisson:
- “The smiles returning to the faces...”
Lia!...
– Este disco que está tocando não está na prateleira. Propaganda enganosa – doce, Lia dizia sorrindo, um olharzinho pedinte misto de emoção e explosão contida.
– Comprei o último. Não há mais à venda. Eu guardei pra você
– respondi sorrindo, agora sem precisar mentir.
– Viu como a verdade sempre parece mais verdadeira. Só que
este eu já tenho. Só não tenho mais você, eu não tenho... – ela disse, e eu me
dei conta que nunca havia visto Lia chorar.
– Agora você tem, Lia, agora tem! – e eu cantarolei com
Harrison o finalzinho da canção:
“Here come the sun,
And I say
It's all right”.
CRiga.
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
Timidez
O ártico na boca do estômago é simplesmente te ver chegar, e
chegou, com atraso, um arraso entrando na sala! A aula passa, eu olho, você
conversa, a professora chama sua atenção. Você apenas sorri, recolhe o corpo à
carteira e finge que não foi com você. Foi pra mim que sorriu? Acho que sim!
Acho que não… A aula passa arrastada, eu engulo seco esse correr rápido demais
do meu coração. Finalmente o sino bate, é hora do recreio: agora é fogo gelado
no peito, a espera, a ansiedade, o bilhete escondido na mochila, ninguém vai
ver. Saio à sua procura, eu trouxe um lanche a mais pra dividir e você só anda
dando voltas no pátio junto a colegas, não para nem prum oi. Na volta, em fila
pra sala, todos sentam e eu só continuo olhando pra você. Esperança: trabalho
em grupo! Cruzo os dedos, é a professora que vai montar – não ficamos juntos,
será que um dia vamos ficar? Seus dedos passeiam por dentro da mochila
procurando não sei o quê, desfilam, reviram, puxam o caderno e lá se vai meu
bilhetinho ao chão... Um “não...” sai meio surdo da minha boca, a professora
observa, pergunta o que foi. Não foi, professora. Talvez nunca será...
CRiga.
Cafajestes
Eu me vejo manchando o teu vestido de casamento com o
vermelho sangue de meu ciúme doentio – calma, sem páginas policiais: apenas a
taça do vinho que a gente não tomou porque você estava tão atrasada pro
fatídico dia da noiva, eu te dei carona e nem cobrei a gasosa. Então vai meu
bem ficar tão lindamente atrasada pra gente brincar de rasgar vestido no ato
consumado da festa da tua felicidade muito bem disfarçada pela pesada maquiagem
cara, champanhe e padrinhos que gastaram uma graninha besta em presentes pra te
ver feliz nas fotos do futuro álbum. Nem aquela cena ridícula de novela das
oito existe mais nas igrejas pra eu te condenar, aquela que o padre pergunta se
há alguém que tenha algo a dizer contra esse casamento que fale agora ou
cale-se para sempre – diria mataram o mensageiro do amor com um tiro certeiro
no peito, e, menos poético, teu noivo comeu tua prima por trás na tua cama
ainda quente de manhã enquanto você tomava banho, tua família é uma farsa de
corruptos e gente de passados duvidosos, você é a única que presta um pouquinho
pra uma traiçãozinha nada demais antes do casamento... Mesmo na Santa Igreja
não saberia mentir tanto. Casamentinho de merda! Me devolve então a grana Maria
gasolina, Maria mãe de um deus que não acredito, Maria
vai-com-as-outras-foi-comigo, ah, Maria! Eu te amaria tanto se você não
dissesse sim, carregaríamos garrafas pelas ruas e cairíamos esquinas pelas
noites sem fim até que alcançássemos a cama mais uma noite, a gente gritando
urros de prazer na madrugada até o amanhecer te chamar praquele empreguinho de
merda e o meu eterno vagabundear fingindo trabalhar numa redação de jornal. E
só te trairia com escritos mais românticos, não marginais. E você se ofenderia.
E por vingança finalmente se casaria, certa de querer ser eternamente infeliz.
CRiga.
Um engano de vida
Na sua solidão de fila no caixa-eletrônico, pensava em
relatórios e contas. “Oi!”, ela disse,
tão linda menina. “Não se lembra de mim, não é?”, emendou, logo com um beijinho
no rosto. Não se lembrava. “Ah, devem ser os óculos novos...”. Tirou.
Ele ainda franzia levemente as sobrancelhas, como quem se
esforçava em tentar lembrar. “Puxa, não se lembra?”, insistiu ela, olhinhos
tristezinhos. Os óculos dele, de aros pretos, também eram novos - por isso os
tirou pensando estar com a vista atrapalhada.
“Ai meu Deus, me desculpe... pensei que fosse um amigo meu... desculpe”, foi-se, encolhida, correndinha.
Ele ficou olhando ela ir, parado no tempo, esperando um beijinho de volta. Desabou na decepção de se lembrar quem ele mesmo era. Devagar, vagando, colocou de volta os óculos novos, e reafundou-se em sua solidão de filas, relatórios e contas exatas do salário. Tudo consumido no sustento do lar materno, nada sobraria no fim do mês. Nada.
Só a voz da mãe, irritante: “bonitos óculos, meu filho... você ficou muito bem”.
CRiga.










