quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Quarenta

 

Agulha travada
Na sujeirinha do velho vinil –
Uma nota só no solo triste de uma guitarra
E num grito mixado de solidão.

Meio emeéle
No vidro do perfume francês –
Um cheiro só na fragrância de perder os rumos
Insistindo em guardar lembranças.

Fotografia desbotada
No bolso do surrado jeans –
Uma cor de pó gritando no assoalho comido
Um nome rangido, abafado.

Botão de rosa pendurado
No caule quebrado do abandono –
Plantas revirando em nó o sedento jardim do quintal de pedra
Invadindo a casa, um dia lar.

Morri, revivi
Procurando tolos atalhos
Nas coisas que mofaram
Nos objetos sem objetivos.

Um dia desistiram de mim
Sem me avisar, não foi por mal –

Sexta-feira que vem eu programo
Meu próximo inferno astral.

CRiga.




terça-feira, 26 de agosto de 2025


 

Falta-me

 


Correr de volta o teu caminho
Margaridas na calçada.

Recuperar a lucidez do amor
Comprar uma passagem
Pra você me acompanhar.

Não deixar teu cabelo novo
Passar despercebido pela sala.

Não desviar o olhar
Negar um sorriso à facilidade.

Trilhar esta cidade
Em busca de um encanto, que difícil!
Não o ar fedido que sufoca meu filho.

Correr de volta o meu caminho
Um pedido de namoro, rosas e romance
A poesia em meu alcance
Esquecida nos cadernos.

CRiga.



segunda-feira, 18 de agosto de 2025


 

Ele não era um cara legal

 


Eu não vi as flores nascendo do asfalto
Que é só onde sei procurar.

Na mesma galeria ninguém me disse nada
Algo que eu pudesse guardar.

Eu não ouvi a música da moda
Nem sou o idiota popular da roda.

Eu sou é o vidro que corta
Em vez do falso brilhante.

CRiga.



sexta-feira, 15 de agosto de 2025


 

Drops

 


Beijava o drops cereja
Com promessas de para-sempre.

Mas o para-sempre perdeu o gosto
E no bolso coube a vida inteira
Dentro da carteira, uma foto desbotada.

Relançaram o drops nesse verão.
E eu não beijei
Só lembrei...

CRiga.