quinta-feira, 14 de agosto de 2025


 

A gosto seco

 


Falta-me o aroma de flores selvagens
Espinho de flor no coração
Gota de sangue manchando o papel.

Se apertar o peito é “crec”
Espremer a alma
Não é lágrima que cai.

Inverno, agosto, falta tempo
Uma nova canção, o fogo da paixão
Falta a tempestade me irrigando
Sementes secas gritam socorro.

Amigo é o aroma do asfalto molhado
Mas a estiagem tão cedo já silencia.

Jardim de terra empedrada
Rosa marrom enrugada
Cheirando a velório sem cheiro
Na gaveta emperrada no coração.

Terra árida vira pedra no chão
Eu prefiro chorar solto no cais
A não sentir nada mais.

CRiga.



 



segunda-feira, 11 de agosto de 2025


 

Anencéfalo

 


Pré-nasci, sou assim sem cabeça
Eu só penso com o coração.
E por isso nem sei se sinto dor
Depende de minha mãe:
Se ela sofre me dói também
E prefiro acabar com a dor;
Se acredita me alivia
E me dá mais um dia.

Quem disse que não a vejo?
Eu vejo sim, o rosto dela
Em mim
E mesmo que eu não saia vivo daqui
Ninguém sai vivo de lá também.

Depende de minha mãe.
Eu não sei nada, nem pensar,
E ela também não, tudo bem –
Só sei que ela quer o melhor pra mim
Só sei que ela quer o melhor pra ela também.

Há melhor no pior, mamãe?

CRiga.




sexta-feira, 8 de agosto de 2025


 

A louça no fim do dia

 


Faca cega não corta palavras.
Há agora apenas um papel amassado
Afixado na porta da geladeira
Com um imã daquele bem brega.
Alma que escorrega...

Hoje desperdicei o fio falando
Sobre o que não vai mudar a vida de ninguém.
Fim de dia e nem precisava nada assim
Tão profundo –
Bastava um mundo onde por um segundo
Se pudesse sonhar ou rimar ricamente.
Há um perdido antigamente...

Não estou mais afiado. Pedra gasta.
Cerveja quente. Coca-Cola sem gás.
Vinil riscado fritando ovo insistindo gritar
Na vitrola mono de uma caixa só.

Um nó na garganta...
O pôr do sol não traz o sorriso de missão cumprida
Porque a louça grita silenciosa na pia –
Apenas o fim do dia.

CRiga.