quinta-feira, 7 de agosto de 2025
Cafajestes
Eu me vejo manchando o teu vestido de casamento com o vermelho sangue de meu ciúme doentio – calma, sem páginas policiais: apenas a taça do vinho que a gente não tomou porque você estava tão atrasada pro fatídico dia da noiva, eu te dei carona e nem cobrei a gasosa. Então vai meu bem ficar tão lindamente atrasada pra gente brincar de rasgar vestido no ato consumado da festa da tua felicidade muito bem disfarçada pela pesada maquiagem cara, champanhe e padrinhos que gastaram uma graninha besta em presentes pra te ver feliz nas fotos do futuro álbum. Nem aquela cena ridícula de novela das oito existe mais nas igrejas pra eu te condenar, aquela que o padre pergunta se há alguém que tenha algo a dizer contra esse casamento que fale agora ou cale-se para sempre – diria mataram o mensageiro do amor com um tiro certeiro no peito, e, menos poético, teu noivo comeu tua prima por trás na tua cama ainda quente de manhã enquanto você tomava banho, tua família é uma farsa de corruptos e gente de passados duvidosos, você é a única que presta um pouquinho pra uma traiçãozinha nada demais antes do casamento... Mesmo na Santa Igreja não saberia mentir tanto. Casamentinho de merda! Me devolve então a grana Maria gasolina, Maria mãe de um deus que não acredito, Maria vai-com-as-outras-foi-comigo, ah, Maria! Eu te amaria tanto se você não dissesse sim, carregaríamos garrafas pelas ruas e cairíamos esquinas pelas noites sem fim até que alcançássemos a cama mais uma noite, a gente gritando urros de prazer na madrugada até o amanhecer te chamar praquele empreguinho de merda e o meu eterno vagabundear fingindo trabalhar numa redação de jornal. E só te trairia com escritos mais românticos, não marginais. E você se ofenderia. E por vingança finalmente se casaria, certa de querer ser eternamente infeliz.
CRiga.
quarta-feira, 6 de agosto de 2025
Militância de flores
Há um Brasil que insiste
Invadir minha história de amor.
Trocam-se flores multicores
Pelo amarelo e vermelho –
As flores não ficam tão tristes
Desde os tempos de Vandré.
Trocam-se poemas por discursos.
A carta anônima romântica
Depositada na caixinha do correio
Vira fraca denúncia estampada
Em qualquer página de jornal.
Troca-se perfume por gás lacrimogêneo
Vestido chita por camiseta chiita.
Troca-se convite a um passeio
Por convocação a passeata.
Eu prefiro sim a flor colhida
À morta pisada no canteiro.
Um coração partido
A tomar partido do terror.
Há um Brasil que resiste
Se reinventar histérico
Na minha história de amor.
CRiga.
terça-feira, 5 de agosto de 2025
A ditadura da desconstrução
A mesma velha receita do destruir –
Discursos combinados
Ataques arranjados
Um vale-tudo que engole
O caolho que tem fome.
CRiga.
domingo, 3 de agosto de 2025
Entre os lábios
A língua draga com fogo de dragão
Beijo que chupa a pele do pêssego morno
Ou boca caindo de boca
Na doce manga de estação.
CRiga.
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