quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Vontade de escrever? Minta um pouco...

 


Você pode escrever sobre o que quiser. Só não escreva sobre si mesmo – esta pessoa em que você nunca pode confiar…

Se insistir, mentirás. Mentirás até que convenças a ti mesmo que a verdade a gente inventa só pra ser feliz. Uma verdadezinha inventada não faz mal pra ninguém, vai…

Então escreva sobre a vida dos outros. Invente vidas batendo de frente, gente morrendo no final da história. E espíritos de almas mal-resolvidas que resolvem atormentar outras tão mal resolvidas quanto. E ponha uma saída triunfal, daquelas que levam a bengala de cedro de verdade da sala – um vivo veria apenas a bengala boiando boiando atravessando a porta aberta. Isso tudo dá prêmio de literatura na cidade onde moro.

Use muita metáfora, muito código, muita escrita que parece sem nexo – parece chique não fazer-se entender, porque às vezes até dão prêmio pra isso na ABL.

Ponha uns versos no meio, tipo poeta maldito. Palavrões também parecem adequados na modernidade.

Separações, amores imperfeitos. Não esqueça da menção a uma música antiga.

Fosse escrever sobre si, a verdade é que ninguém talvez quisesse saber. E, convenhamos, não fica bem: você ficar sozinho numa tarde chuvosa, com aquele papelzinho besta às mãos, perdido num ponto de ônibus qualquer, sola e guarda-chuvas furados, um terno velho cheio de bolinhas e um conhaque pela metade. Faça-me o favor de parar com esse melodrama, batidamente lindo, mas melodrama de escritor maldito. E caia logo à sarjeta, deitado junto à centena de cacos e uma folha de papel molhada na poça. Ninguém vai chamar o resgate. Assim você vai morrer.

E se os borrões no papel permitirem, aí estará um novo sucesso de literatura. Mas você já estará morto. Mas você não deve querer morrer. Por isso, viva a vida de outrem, que morre e revive conforme a conveniência do seu acordar. Mas mate um a cada dia, e faça (re)nascer outro pra morrer no próximo amanhecer de asfalto molhado. Assim você mata a vontade de escrever outra bobagem, e não corre o risco de ser traído por si mesmo – essa pessoa em que você nunca pode confiar.

CRiga.



quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Segredos de pelúcia

 


Dali a pouco ele chegaria, provavelmente com um buquê de flores, um vinho, e depois da novela fazer amor, na sala, no quarto dos pais ou no seu, cheio de bichinhos de pelúcia nas prateleiras cor-de-rosa. Há quase um mês papai e mamãe viajavam pela Europa, e ela sozinha porque tinha de ir pra faculdade - não ia. Mas o professor ia à casa dela. Nem novo, nem tão mais velho. Chegava todo dia na hora da aula com um presentinho, um vinho, um licor, flores, jóias... Gostava muito era dos bombons e de sua boa conversa.

Até aqueles seus dezenove anos não tinha experimentado nada assim. Nem sabia o que era se apaixonar. Poucos dias atrás tinha perdido a virgindade na cama dos pais, o professor. Todo dia ele vinha, todo dia ele falava muito, e ela se perdia no olhar dele, no beijo, no sofá, na cama. Aventura. Amor.

Mas aquele dia ele não chegava. ‘Tão pontual, gosta tanto de mim...’ A impaciência dela já chegava à perturbação. Foi pra faculdade procurar por ele. Ligou o carro, acelerou forte.

Na esquina, o escuro, mas ela viu: o professor e aquela loirinha da turma de Psicologia. Beijos e mãos passeando por baixo da saia da menina, por dentro do zíper da calça social do professor. E ela viu tudo, do meio da rua. Tudo parou, menos seu carro. Acelerou forte, muito forte, muito ódio. Dali a muito pouco, menos uma árvore na rua da faculdade, menos gente enganando gente nesse mundo confuso que era cor-de-rosa agora vermelho sangue, antes ursinhos de pelúcia agora ratos de esgoto, antes bombons de licor agora de ácido sulfúrico. Deu meia volta, não voltou pro lar.

Hoje mamãe e papai não sabem em que casa noturna ela vende seu corpo. Uma cicatriz na alma, um mistério, e uma cara de menina que faz sucesso. Por vingança, cobra caro, muito caro. E muitos querem, porque ela chega atropelando com seu corpo de menina-mulher, fala pouco, os homens gostam de suas roupinhas tipo universitária de Moema. No quarto eles sorriem e sentem tesão com a prateleira e um ursinho de pelúcia encardidinho.

Mas ela exige respeito. Quem sabe um vinho, uma flor, menos caixa de bombom, muito lero ou aula de romantismo. Homem bom é o que chega, paga, come, e vai sem falar o nome. Deixa vazio o que vazio está. De manhã vai dormir, consciência tranquila e agarrada ao ursinho encardidinho. Menina-mulher que dorme enfiando a mão naquela bunda de pelúcia, contando os dólares do dia.

CRiga.


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Remédio pra ansiedade

 


Nada na caixa postal,
você sempre espera demais!

Não tem nada, relaxa,
amanhã a gente vê.

Mas nem tem amanhã.
O ontem era pra ontem.

Mas há na trincheira
o velho e bom telefonema.

No meio do dia o diabo gargalha,
mas na urgência tem a pílula do amor.

CRiga.



quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Noite de verão

 


Porque agora
há noite ainda.

Paladar de deuses insones
recitando estrelas
de desejos pueris.

Faz tempo que a madrugada chama
ama segura sincera silenciosa.
Boca preta cheia de dentes perfeitos
que te come a alma mastigando poemas.

Besouros não gostam da luz amarela.
Abre a janela, vem pro jardim –
tem satélite, cadente e uma brisa.

Abre a camisa, seja valente.
Dá de beber ao poeta insolente
cujo prazer no gole profundo
goza o fim do mundo
numa eterna noite quente.

CRiga.



terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Diminuto

 


Há uma solidãozinha que cutuca o peito, sabe...

Um amargorzinho de folha em branco,
um medinho de não sei o quê.

Dorzinha fria que nem ponta de faca cega.
Uma sensaçãozinha de abstinência
frio na espinha
no meio da tarde de verão.

Bolinha murchinha murchinha,
moleques gritam as férias na quadra.
Palavrinhas à brisa morna vão-se embora,
me deixam sozinho, escória.

Agorinha eu tinha onde me escorar,
ainda tenho onde morar, uma casinha
um sonho, uma estória.

Putinha essa sensação de nada,
nadinha nadinha...

CRiga.


terça-feira, 25 de janeiro de 2022

A hora

 


Um grilo confunde a noite.
Seria a paz, não fosse a morte.

Carros batem ao passar sinais vermelhos.
O sogro sangra no punhal o genro insano
sem grana pra comprar a droga.
No parto a mãe sorri ao filho
dizendo adeus, ela sabia, operação arriscada.

Seja estúpida, rasa, sem graça.
Seja injusta, em casa, na praça.

Uma certa paz de toda a forma ressurge
dizendo verdades e besteiras no funeral,
enquanto aos poucos a morte se envergonha de você
ainda vivo, à espera ou fugindo,
fingindo ser imortal.

Uma cerveja no dia seguinte, que sorte!
Mas um grilo confunde a noite...
Seria a paz, não fosse a morte.

CRiga.
(fotos de Cauê Rigamonti)



segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Sapato velho

 


Uma das piores sensações de um homem
é o estágio em que ele sente vergonha
de seus sapatos.

É quando toda a humildade que ele sempre cultivou
não vale mais que a falta de lustre
e de couro.

Quando o engraxate se torna
padre confessor.

CRiga.