segunda-feira, 11 de outubro de 2021

O circo pelo pão

 


Tem que gostar,
fingir gostar
ou forçar-se a gostar.

Como a fotografia não mente
todos sorriem e se abraçam pra lente,
num mundo perfeito de flashes
e notas sociais.

Nesse circo,
ao lado da querida autoridade paralisada,
os pobres desdentados também sorriem
seu momento de glória maior.

Na manhã seguinte
apreciam as notícias do dia –

uns com seus brioches
rindo e falando mal,

e outros com o pão de ontem
trocado por foto
na coluna do jornal.

Tudo parte
desse grande teatro social.

CRiga.


quinta-feira, 7 de outubro de 2021

o pó do rodapé

 


Entre marias-fedidas
voam saudades de você!

Maldizemos do cheiro delas,
fedidas marias!

Enquanto na volta ao mofo preto,
o apartamento nos vicia
ao CO2 do dia a dia.


CRiga.



quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Approach

 


– Quer namorar, Fabi?
– Não, eu gosto do Agostinho.
– É... Agostinho, é?...
– Agostinho, eu gosto é dele. Não gosto de você.
– Não acho que seja uma boa escolha...
– O quê?
– O Agostinho.
– Como assim? Até parece que isso vai mudar alguma coisa.
– Então tá, Agostinho, Agostinho... Boa sorte.
– Obrigada, aproveita e se manca.
– Agostinho não é bom partido. Agostinho não...
– Larga mão! Para de ser invejoso!
– A palavra certa é ciumento.
– É inveja mesmo, dele. Se é ciúme, você tá perdido, não tenho nada a ver. Se manca!
– Olha, eu não vou insistir, mas Agostinho não serve.
– O quê?
– Não serve. Gosta de outra.
– Gosta de outra? O que você tá falando? Larga a mão de ser assim!
– Tá avisada. Agostinho não vai nunca querer namorar você.
– Ah...
– Ele gosta da Lídia.
– Que Lídia?
– A Lídia, lá do fundo. A Lídia, que se veste de preto.
– Magina, Lídia nada! Para de querer botar defeito!
– Defeito, eu? Lídia é bonitona, estilosa. Você...
– Eu o quê, fala!
– Você não é assim, é meio...
– Meio o quê, fala se tem coragem!
– ...sem graça, sabe. Não tem approach...
– Apoquê?
– Não tem approach. Agostinho gosta de garotas de approach.
– Garotas de approach...
– Ele também tem.
– Tem o quê?
– Approach. Mais que eu, inclusive.
– Onde compra?
– O quê?
– Approach...
– Ah, isso não se compra. Nem se consegue de uma hora pra outra.
– Então é só eu me vestir de preto também?
– Não funciona. É mais que roupa.
– Cor de cabelo?
– Mais.
– Jeito de andar? De falar?
– Mais, mais...
– Que droga, preciso de approach! Me ajuda?
– Em casa dá pra conseguir.
– Na sua casa?
– É. Lá tem approach. É chegar e ter.
– Vamos lá, vamos lá!
– Sairá de lá com muito approach.
– Vamos, vamos!
– Vamos... é.. sei não...
– Sei não o quê?
– Acho que vou chamar Lídia.
– Quê?
– Lídia, lá do fundo da sala.
– Mas ela não gosta do Agostinho?
– Quem gosta dele é você. Ela gosta de mim.
– De você?
– De mim. Acho que é o meu approach.
¬– Mas e você, não gosta de mim?
– Gosto mais dela. Ela tem approach.
– Ah, me deixa!

***

– Quer namorar, Lídia?
– Eu não gosto de você.
– Gosta de quem então?
– Não interessa. E você nunca adivinharia.
– E Agostinho?
– Que tem?
– Ele gosta de você.
– Coitado... Acho que não...
– Na verdade eu gosto da Fabi. Ela tem mais approach.
– Então por que me pediu em namoro, ô boboca?
– Pra fazer ciúme pra Fabi. Ela diz que você também tem um certo approach.
– Approach?...
– Approach.
– Ela disse isso?
– Disse sim…
– Disse isso de mim?
– Sim…
– Então eu topo.
– O quê?
– Namorar você.
– Mas você não gosta de mim.
– Não, eu gosto dela. Me ensina a ter approach?
– Dela, da Fabi?
– Da Fabi, da Fabi!...
– Mas Fabi gosta de Agostinho.
– E Agostinho gosta de você.
– Agostinho, como assim?
– A-gos-ti-nho. Gosta de você.
– Eu, como assim, Agostinho, como assim?
– É o seu approach. Você tem, me ensina!
– Eu? Eu não, não tenho não...
– Ah, váááá!...
– Eu não gosto de Agostinho.
– De Fabi é que não é...

***

– Quer namorar, Agostinho?
– Quem?
– Escolhe. Quem tem mais approach...

CRiga.


terça-feira, 5 de outubro de 2021

A boca

 


Quando cala, instaura a dúvida.
Se fala, é preciso cuidado –
inclusive para ouvir.

Pode declamar poemas
ou xingar o motorista.
Dizer que ama,
que tome cuidado na estrada.

Quando beija
no rosto é carinho.
Nela é paixão!
Às vezes só selinho
de carinho com paixão.

Engole sapos e outras bocas,
mamilos e mangas da estação.

Faz biquinho na selfie
e não sabe se portar
sozinha no metrô.

Quando se abre gargalhando é piada boa,
ou, no desenho animado, é o vilão –
hoje criança tem medo da bruxa má?

Quando sorri é tanta coisa...
Gentileza.
Leveza.
Amor.
Sedução.
Felicidade.
Lembrança boa.
Um “olá”.
Um “tchau”.
Mal difícil ser.
Geralmente é muito bom.

É maldita, é da noite.
Cochicha preces na igreja.
Grita um nome ao portão.
Serve pra ir a Roma
ou pra puta que pariu.

Sozinha sente a lágrima correr salgada
e engole o choro disfarçando a dor.

Às vezes nunca falou
e as mãos fazem a vez
e a voz.

Às vezes fala demais
inclusive com as mãos –
que digam nossos italianos!

Bate com ela é baixaria.
Dela pra fora pode até não ser sério,
mas às vezes magoa.

Pode dizer sobre tanta coisa boa...
por que então maldizer,
querer estragar os dias?

Dos buracos da cabeça
é o único sem par.
Mas quando pareia
incendeia!

Numa ceia dizem que traiu.
Em outros tempos tristes
entregou inimigos à fogueira.
Hoje engana fiéis
com fome de Verdade.

E canta!
Inclusive, paquera...
Morde e assopra.

Dilacera
por ódio
e por amor.

CRiga.



quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Placa de aviso

 


Minha flor virá,
saiba.

Mas não te preocupes,
ventos sinceros também confundem.

Poderás confundir-te
entre o abrigo dos meus braços.

Poderás duvidar dos meus passos
sobre o jardim seco deste inverno.

Mas não te ocupes...
Minha primavera sempre chega
e ela nem se preocupa em ser verão.

CRiga.


 

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Pau oco

 


No meio da praça penitência
na silenciosa romaria
à escadaria da catedral,

não me bata a carteira
não me roube a certeza
que o meu tempo já passou.

Na via crucis ainda há uma oração
que precisa seguir cega, sem rancor. 

Tire sua juventude do meu caminho
que eu quero passar, muito devagar,
quero te comer com os olhos
aqui do alto do meu andor.

𝐂𝐑𝐢𝐠𝐚.



quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Amor de primavera

 


A primavera já chega.
Mas ela já foi embora.

Girassol.
Flor selvagem.
Lenda de adolescência.

Tudo vai embora.
Tudo tem uma hora 
até o verão chegar.

CRiga.