segunda-feira, 17 de maio de 2021

Cartas pra ninguém

 


Meu antigo amor,
minha amiga, meu sonho que passou,
recheado e enfeitado
com tudo o que aprendi.

Nada aprendi!

Minha doce impressão
de amor abandonado na esquina –
por que só quando a gente envelhece,
sonhos resolvem nos corroer
e os olhos aceitam o perdão?

Não me reencontrei.

E perdi a ideia de quem és,
perdi rumos e rumores,
um cabelo feito pra reconquistar
e uma juventude toda pela frente
só pra recomeçar.

Minha cara, meu segundo rosto,
te escrevo o sangue inútil
deste cansado coração sem mais letras.
Aguardo novas notícias tuas
num selo carimbado de devolução.

Triste coleção.

CRiga.


sexta-feira, 14 de maio de 2021

Amor de ficção

 


Entregou as flores de um amor perfeito,
ela preferia uma caixa de bombom.

Precisava falar sobre amor,
ela sobre o fim da novela das oito.

Entregou finalmente os pontos,
a voz já lhe faltava tanto.

Comeu o travesso chocolate
recheado de ácido sulfúrico –
virou a linda vilã agora morta
no melhor e último capítulo.

Amor de verdade
é que tem dessas coisas, meu bem –
rosas vermelhas num buquê
e sangue no plantão da Globo.

CRiga.


quarta-feira, 12 de maio de 2021

Futilidade

 


O alimento no cateter de caráter fraco
são os likes de rede social.

"Super legal", e tão banal.

A religião é o culto da personalidade incauta
falsa boneca de porcelana
na selfie cínica narcisa.

Super facial, superficial.

Nos comentários destila o que um destilado estragado
faz ao playboyzinho de baladinha:
burrices, burrices, burrices...

Só superlativos, relinchos disfarçados.

A moda é ser tão fútil quanto a sacola
ecologicamente correta do supermercado
que carrega o papel higiênico usado.

CRiga.


sexta-feira, 7 de maio de 2021

Velho casaco de outono

 


Expectativas se esvaem docemente,
tão rapidamente.

Há um amargo no algodão-doce
que nas nuvens correm ventos uivantes.
Véus de noiva morta
sufocando um tísico verão.

Há alguém que sempre insiste.
Triste é o romance seco nos lábios
que se machuca num sorriso.

Cafetão traiçoeiro de vingança...
Vai marcar-te face a face
lâmina gelada num vento cortante.

A cada noite a boca preta te dá mais estrelas,
cadentes e satélites.
Sorri melancólica te sussurrando na nuca
um esquecido segredo de guarda-roupas.

CRiga.



Música francesa

 


A moça canta tão doce
palavras que não sei –
covardia é discutir amor
com uma cantora francesa.

Triunfo nem Eiffel,
nada rima sobre o papel que assumo.
Lábios em bico pronunciam erotismos.
Olhares furtivos me convidam à alcova.

A moça canta tão segura
tudo o que quero imaginar –
varia entre Notre-Dame e uma cruz
e os becos charmosos da Cidade Luz.

Sob o arco ou a torre
a rima pobre é barco ou porre.
Covardia é faltar elegância pra te cantar
e enrolar as línguas num idioma só.

CRiga.



quinta-feira, 6 de maio de 2021

Um outono sem conspirações

 


O outono e sua faca cortante
de ódio contido.

Frio seco feito lâmina na cara que encara
o caminho, um doce crime
licor de ácido na boca da noite.

Céu de estrelas atrás da fumaça,
a feia urbanidade vira poesia.

O dia uma boba fuga prum café
subversivo, na esquina do beco.
E com a ex-secretária do velho partido
tramar revoluções embaixo de cobertores.

O outono e sua face de sensações
contra o sentido da areia da ampulheta.

Violeta murcha, rosa que não a vermelha.
Dor no peito que não o sangue
da autoritária bala de borracha.
Estanque o desejo, guarde o frio seco
quase sangrento no fio da faca.

O outono e seu eterno vinho pela metade
escondido embaixo do casaco da cidade.
Já não somos mais tão jovens,
não temos mais conspirações.

O outono agora é só a impressão
da tola importância que demos às boinas,
cadernos nos bares
e poéticas revoluções.

O outono e sua faca cortante
de tantas desilusões.

CRiga.


quarta-feira, 5 de maio de 2021

O vírus do "lado certo"

 


Experimente
lhe faltar o ar.

Queria ver você perdoar
o governante que fosse.

O seu lado ladeia demais das coisas.

A gente também precisa respirar.

CRiga.