sexta-feira, 14 de maio de 2021

Amor de ficção

 


Entregou as flores de um amor perfeito,
ela preferia uma caixa de bombom.

Precisava falar sobre amor,
ela sobre o fim da novela das oito.

Entregou finalmente os pontos,
a voz já lhe faltava tanto.

Comeu o travesso chocolate
recheado de ácido sulfúrico –
virou a linda vilã agora morta
no melhor e último capítulo.

Amor de verdade
é que tem dessas coisas, meu bem –
rosas vermelhas num buquê
e sangue no plantão da Globo.

CRiga.


quarta-feira, 12 de maio de 2021

Futilidade

 


O alimento no cateter de caráter fraco
são os likes de rede social.

"Super legal", e tão banal.

A religião é o culto da personalidade incauta
falsa boneca de porcelana
na selfie cínica narcisa.

Super facial, superficial.

Nos comentários destila o que um destilado estragado
faz ao playboyzinho de baladinha:
burrices, burrices, burrices...

Só superlativos, relinchos disfarçados.

A moda é ser tão fútil quanto a sacola
ecologicamente correta do supermercado
que carrega o papel higiênico usado.

CRiga.


sexta-feira, 7 de maio de 2021

Velho casaco de outono

 


Expectativas se esvaem docemente,
tão rapidamente.

Há um amargo no algodão-doce
que nas nuvens correm ventos uivantes.
Véus de noiva morta
sufocando um tísico verão.

Há alguém que sempre insiste.
Triste é o romance seco nos lábios
que se machuca num sorriso.

Cafetão traiçoeiro de vingança...
Vai marcar-te face a face
lâmina gelada num vento cortante.

A cada noite a boca preta te dá mais estrelas,
cadentes e satélites.
Sorri melancólica te sussurrando na nuca
um esquecido segredo de guarda-roupas.

CRiga.



Música francesa

 


A moça canta tão doce
palavras que não sei –
covardia é discutir amor
com uma cantora francesa.

Triunfo nem Eiffel,
nada rima sobre o papel que assumo.
Lábios em bico pronunciam erotismos.
Olhares furtivos me convidam à alcova.

A moça canta tão segura
tudo o que quero imaginar –
varia entre Notre-Dame e uma cruz
e os becos charmosos da Cidade Luz.

Sob o arco ou a torre
a rima pobre é barco ou porre.
Covardia é faltar elegância pra te cantar
e enrolar as línguas num idioma só.

CRiga.



quinta-feira, 6 de maio de 2021

Um outono sem conspirações

 


O outono e sua faca cortante
de ódio contido.

Frio seco feito lâmina na cara que encara
o caminho, um doce crime
licor de ácido na boca da noite.

Céu de estrelas atrás da fumaça,
a feia urbanidade vira poesia.

O dia uma boba fuga prum café
subversivo, na esquina do beco.
E com a ex-secretária do velho partido
tramar revoluções embaixo de cobertores.

O outono e sua face de sensações
contra o sentido da areia da ampulheta.

Violeta murcha, rosa que não a vermelha.
Dor no peito que não o sangue
da autoritária bala de borracha.
Estanque o desejo, guarde o frio seco
quase sangrento no fio da faca.

O outono e seu eterno vinho pela metade
escondido embaixo do casaco da cidade.
Já não somos mais tão jovens,
não temos mais conspirações.

O outono agora é só a impressão
da tola importância que demos às boinas,
cadernos nos bares
e poéticas revoluções.

O outono e sua faca cortante
de tantas desilusões.

CRiga.


quarta-feira, 5 de maio de 2021

O vírus do "lado certo"

 


Experimente
lhe faltar o ar.

Queria ver você perdoar
o governante que fosse.

O seu lado ladeia demais das coisas.

A gente também precisa respirar.

CRiga.



terça-feira, 4 de maio de 2021

Estava escrito

 


Passou lotado
bem na sua frente
um descrente.

Aquele da cara torta
que apontava sorrindo
para que lado era porta.

Uma adversária no jogo de truco
na calçada do colégio.

Um colega da contabilidade, de férias.
Nunca mais contabilizei tão bem
os dias faltando de trinta dias.

Era neve a sua pele, sangrou o dedo
brincando de rolimã.
Mãos dadas às minhas, subimos de volta a ladeira.

Ele até que te chamou praquela festa,
na periferia, e você foi!
Mas na hora não entendeu a letra.

Foi furando a fila com um disco novo.
Enfrentei só vaias e só você venceu.

Fui furando o disco de tanto ouvir
que finalmente eu descobri você.

CRiga.