sexta-feira, 16 de abril de 2021

Notícias de Hiroshima

 


Sobre a tranquila cidade vizinha
houve a brisa louca e cinza
trazendo notícias e encomendas.

Talvez uma boneca nova
chegando de presente
à menina que já cresceu.

Talvez a maletinha de material escolar
que o garotinho esperou
lendo uma historinha de samurai.

Talvez o relógio da moda, o vestido
talvez a cama e até um gemido de prazer.

Ou talvez apenas o noivo distante
finalmente na visita prometida,
pousando leve sobre a pele da moça
distraída na lavoura de arroz.

CRiga.


quinta-feira, 15 de abril de 2021

Trailler da paz das almas

 


Um caminhão passava lotado na rodovia.

E ele câmera lenta. Trôpego.
Observava, ouvia o ronco louco.
Um flash da vida inteira nos olhos sem cor.
Muito pouco a dizer.
Muita vontade de avançar a linha do acostamento.

Na pista tapete de rodovia interiorana,
pouco espaço caso o acaso causasse tropeços.

Não há acasos, caso você não saiba:
na casa do desespero dos fracos,
uma mulher fumava em paz o seu cigarro
entre os braços de um amante mais amoroso.

Era um caminhão lotado de pesadelos.
Os faróis de cor amarela,
para-choque sem dor,
um ronco feroz de animal justiceiro.

E o trôpego avançou a linha do acostamento.

Desde então, justiça ou loucura,
havia mais ternura no asfalto vermelho,
uma abreviação de sofrimentos:

uma mulher que agora amava sem culpa
nos braços do amante agora novo amor,

e um buchicho no boteco da vila
com a conta ainda aberta
de um cliente que nunca mais voltou.

CRiga.


quarta-feira, 14 de abril de 2021

Mágoa

 


Pedra crack no coração,
bad vicious... 
Envelhece, são rugas rusgas repetidas
amarga bílis
ácido na bem-vinda santa úlcera.

Um parto de dor feito pedra no rim.
Ela vem e petrifica tudo
com seu manto de morte abraçada
amarrada.

É feito macumba
tão boca de sapo
quanto boca do lixo.

Uma pedra sempre ponto de partida,
sad precious...
No sapato no caminho na cuca
não tem como britá-la jogá-la ignorá-la.

Nem vozes da brisa soprando “esquece”.
Ela é a nova sensação pós-verão
neste agora pedra coração.

É feito o amor
tão marcante
que a gente não consegue esquecer.

CRiga.



sexta-feira, 9 de abril de 2021

Lírica acidental

 


Pus letras
puzzle
quebrei cabeça.

Veia à louca
sangue violeta
e letras pus.

No momento estanque
louca sobre a mesa:
a lírica perfeita!

CRiga.


terça-feira, 6 de abril de 2021

Praia do Forte

 


Foi quando eu quis capturar o teu olhar
fazendo o tipo alma do mundo
totalmente careta por você.

Mas era verdade, eu empunhava
uma certa paz impregnada até na roupa
depois da guerra rasgar os meus trapos.

Caminhamos madrugada em direção à praia
e no primeiro sol do dia sorrimos juntos num beijo
naquela ilha de perder noção do tempo.

Havia guerras (duas guerras e centenas de batalhas)
que nas pegadas se deixaram dormir na areia
levada pelo vento da curva no monte.

Areia que não volta nunca mais
feito jura
que a natureza te devolve na brisa.

CRiga.

“Quem sabe isso quer dizer amor
Estrada de fazer
o sonho acontecer”

(Bituca e Lô)


sexta-feira, 2 de abril de 2021

Santa sexta-feira

 


– Salve Nossa Senhora Mãe de Cristo, o Nosso Senhor!
– Só os documentos, por favor.
– Tem certidão de batismo também.
– Por enquanto é só a Carta, senhor.
– Um dia de bons cristãos este!...
– Dia de trabalho. Responsabilidade, senhor.
– Ainda bem que a gente lembra o dia da morte de Nosso Senhor Salvador!
– O senhor bebeu?
– Não. Comunguei. Sangue de Cristo. Tem poder.
– Assopra, senhor...
– Não é derrama?
– Senhor, por favor...
– ... então vamos, vamos então orar...
– Senhor, por favor...
– ... não me livre do meu carro duzentas prestações vexame na família.
– Senhor, por favor...
– Morreu na sexta pra ressuscitar no sábado, aleluia!
– Soldado, me ajude aqui.
– Domingo ele voltou aos céus pros braços de nosso Senhor.
- Braços pra trás, o senhor está preso.

CRiga.



quinta-feira, 1 de abril de 2021

Em uma nota, só

 


Em cima do piano
um copo de veneno.

Piano da sofisticação
pretão, sério demais.

Embebido morreu em si
menor.

CRiga.