quinta-feira, 11 de março de 2021

Imemoriais

 


Desde tempos que busco na memória
nossa história não é das melhores:

algozes nos matando nas trincheiras
freiras nos amaldiçoando nos caminhos
ninhos de cobras nossa cama
lama nos campos nosso lar
mar de baleias e peixes mortos
tortos anjos bebendo cachaça
praça de guerra nossa derrota
nota fria e falsa identidade
cidade que nunca é nossa
fossa no balcão dos bares
ares de inverno polonês
inglês defeituoso na fronteira
cadeira elétrica e masmorra
que porra de mil vidas nós levamos!

Mesmo assim insistes me acompanhar
porque me amas desse jeito
feito filme
desde tempos imemoriais.

CRiga.


quarta-feira, 10 de março de 2021

“Não tenham medo de mim”

 


O vermelho sempre fala mais forte,
ainda mais quando a esperança
tem cor de morte.

Porque apesar de colorir tão belo
a áurea de tua barba ainda preta,

a cor agora é desespero,
é apenas sangue do Covid.

CRiga.


terça-feira, 9 de março de 2021

Amor ou Rivotril

 


Por que meus olhos são a procura
por tua luz anestesiando as coisas
neste escuro lindo escuro
de te esperar pra me salvar?

CRiga.


segunda-feira, 8 de março de 2021

Quando estou em alfa


 

Beto gama no delta das estrelas,
enquanto matemática é contar as horas.

Toca tua vida no piano.
A gente combina mas às vezes erra.

Planta na terra a minha pitanga.
Desculpe, eu costumo só escrever poesia.

CRiga.




Habeas Corpus

 


Estamos agora refazendo os projetos
para aquela nossa nação
e para aquele nosso Poder.

Estamos com os pés no chão,
fomos o diabo que amassou o pão.

Mas nós temos um Jesus
para cada ocasião.

CRiga.



Segunda-feira

 


Solidão é que mata!

A brisa que assovia melancólica
na fresta da porta da varanda.

O sol que ri de sua cara
numa semana que seguirá sem grandes feitos.

O barulho distante do escapamento da moto,
a raiva desses ridículos ainda é a mesma!

Daqui de cima a estrada congestionada
me dá a sensação do cárcere eterno.

Um trabalhador solitário roça o terreno
onde um dia subirão mais alguns edifícios.

Alguém irritante todo dia arrasta os móveis
na sala do apartamento de cima.

A vista que alcança o horizonte
precisa vencer prédios e casinhas mal acabadas.

O silêncio no apartamento é que mata!
Vontade de fazer tudo por você agora
e sempre um pouco mais...

CRiga.



sexta-feira, 5 de março de 2021

Fotografando espíritos

 


A espera parece mais longa quando a chuva cai. Meus amores, minhas dores – no asfalto molhado todos perambulam com seus guarda-chuvas, cada um com sua cor em uma via sem volta.

A espera é fera que hiberna nas trevas da alma. Ruge uma dor que ecoa do fundo da caverna úmida e que cheira a mato molhado.

Quem espera sempre dança uma valsa de solidão no silêncio da casa fria. Casa com o padre, reza com o bêbado caído na esquina.

Me espera, não vai agora. Eu tenho cartões postais em branco pra gente sonhar. Um vestido de festa e outro de casamento. Um baú vazio mofando no quarto, uma garrafa intocada de licor. Uma cama de solteiro, a gente joga o colchão no chão.

A chuva da espera molhou toda a minha casa, distraída deixei janela aberta pra alguém me invadir. Eu queria ter asas pra voar até alguém. A espera parece mais alta quando o céu se abre e o sol não traz mais novidades.

A espera se transforma, com as nuvens sombrias em torno da lua, na noite que cai da minha estante e se quebra mil caquinhos, um porta-retratos ainda com foto de revista. Um anjo azul de bibelô empoeirado, lembrança de um sobrinho que nasceu, cresceu e viajou ao estrangeiro.

A espera é acreditar em filho de virgem. Uma prece, me esquece, me marca num muro, prefiro ser Madalena. Me atira na vida mas não me espere chorar. No compasso do ponteiro do relógio parado vou te atraindo pra armadilha: serei a bruxa que vai te transformar no sapo, você será meu anfíbio de estimação e terá que esperar um beijo meu te libertar de novo. Só que meus lábios secarão com o ar cortante de outono. Estaremos presos um ao outro.

A espera é o brejo feio e fedido da floresta negra das fábulas que assustam as crianças. É a impossibilidade de contar belas histórias aos casacos pendurados na cadeira da sala de jantar. É a solidão dos deuses loucos. É o dedo em todas as feridas da trouxa autocompaixão. Rasgar a carne, sangrar líquidos sem cor, chorar lágrimas imaginárias e etílicas de guaraná. E dormir soluçando baixinho esperando o despertador tocar pra espera recomeçar com o dia sem as flores à porta.

Café amargo, janela aberta, estou pronta – que venham as cartas em branco que ontem enviei pra mim.

CRiga.