segunda-feira, 29 de julho de 2019

Um legado largado no escuro


No futuro, dirão:
“ele tinha um grande amor”.
Tenho vários.

Ou: “ele tinha um grande segredo”.
Tenho vários, também.

Não há nada a se descobrir assim –
entrelinhas
escolas de modernismo
entrevista com amigos e parentes.

Há apenas palavras.
Pontos.
Vírgulas.
E uma vontade louca, porém consciente,
de inflamar a alma novamente
para que ela se lembre de vez quem é,
de quem é.

E isso cabe a mim,
a mais ninguém.

Aqui apenas deixo a forma –
a alma é o meu quarto escuro.
Por favor entre,
mas mantenha a meia-luz.

CRiga.



sexta-feira, 26 de julho de 2019

Militância de flores


Há um Brasil que insiste
invadir minha história de amor.

Trocam-se flores multicores
pelo amarelo e vermelho –
as flores não ficam tão tristes
desde os tempos de Vandré.

Trocam-se poemas por discursos.
A carta anônima romântica
depositada na caixinha do correio,
vira fraca denúncia estampada
em qualquer página de jornal.

Troca-se perfume por gás lacrimogêneo,
vestido chita por camiseta chiita.
Troca-se convite a um passeio
por convocação a passeata.

Eu prefiro sim a flor colhida
à morta pisada no canteiro.
Um coração partido
a tomar partido do terror.

Há um Brasil que resiste
se reinventar histérico
na minha história de amor.

CRiga.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

É hora de você achar o trem


Corri atrás do teu perfume na alameda mais longa. Atrasei, você estava morta enterrada com direito a fotinho oval desbotada na lápide de mármore de quinta categoria. Nós somos assim, ricos só de espírito, mas eles aqui não gargalham nem bebem cerveja. O silêncio da perda é o comum.

Há ratos em volta. As pétalas escureceram, apodreceram. Você não vai voltar, então eu vou embora, me desculpe. Não vou morrer contigo. A chuva já castiga, aquela chuvinha tonta de filme de romance europeu, o cara com os pingos caindo pelo sobretudo preto, encharcado, o rosto parecendo derreter. Aqui, verão, eu de bermuda e havaiana, uma camiseta regata que às vezes uso pra dormir.

Lembra? A gente dormia junto, e você tirava sarro dela. Tinha Nossa Senhora, minha tia me deu depois de voltar de Aparecida. “Ai, Santa!”, você gargalhava, embriagada na nossa cama. Depois, nem santa nem roupa alguma – o diabo nos corpos!

Há ratos em volta de nossa casa, como numa música do Clube da Esquina que você ligava na vitrola. Não quero voltar pra lá. É só um barraco, velho, lá ainda tão todas as tuas coisas. Eu me atrasei... nunca houve mesa pronta, mas esperava te encontrar. A gente se esquece das coisas.

Eu vou embora da tua nova casa, meu bem, ela é fria demais demais, apesar de não ter (e querer) onde voltar. Antes, vou quebrar a garrafa pros cacos decorarem tua nova casa. Assim parece mais ainda com a gente. E os ratos: gente boa! Esse cheiro de mijo, você não deu bola pra mendigo, né? Tudo bem, em casa ninguém limpava nada... Mas tudo incrivelmente brilhava. Até esta mesma foto desbotada.

E, por favor, esqueça de apagar a luz – não é agora que você vai se lembrar. Afinal, meu bem, você está morta e enterrada. Só eu que ainda não saquei...

CRiga.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Um engano de vida


Na sua solidão de fila no caixa-eletrônico, pensava em relatórios e contas.  “Oi!”, ela disse, tão linda menina. “Não se lembra de mim, não é?”, emendou, logo com um beijinho no rosto. Não se lembrava. “Ah, deve ser os óculos novos...”. Tirou.

Ele ainda franzia levemente as sobrancelhas, como quem se esforçava em tentar lembrar. “Puxa, não se lembra?”, insistiu ela, olhinhos tristezinhos. Os óculos dele, de aros pretos, também eram novos - por isso os tirou pensando estar com a vista atrapalhada.

“Ai meu Deus, me desculpe... pensei que fosse um amigo meu... desculpe”, foi-se, encolhida, correndinha.

Ele ficou olhando ela ir, parado no tempo, esperando um beijinho de volta. Desabou na decepção de se lembrar quem ele mesmo era. Devagar, vagando, colocou de volta os óculos novos, e reafundou-se em sua solidão de filas, relatórios e contas exatas do salário. Tudo consumido no sustento do lar materno, nada sobraria no fim do mês. Nada.

Só a voz da mãe, irritante: “bonitos óculos, meu filho... você ficou muito bem”.

CRiga.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Adolescência


Viajava pela memória
de um coração que já é não meu.

Viajei dancei fiquei
namorei traí galinhei
sofri
ah, como sofri!...

E me arrependi...

Voltei,

eu fui sem guia, muito certo,
ao teu inferno que fundei.

Não te encontrei,
eu fui embora,

eu fui a hora de me tornar alguém.

CRiga.


segunda-feira, 22 de julho de 2019

Barba disfarçada


Saberia me contar, me conter?
Quanto tempo dura a juventude?
Quantos rostos se formam severos
nos tijolos incompletos de nossa obra
nos cobrando dívidas
e atenção?

Eu apenas tenho roupas de guerra
guardadas gomadas num guarda-roupa.
Mas a guerra acabou, a paz é cara,
minha cara agora tem de novidade
apenas uma barba grisalha.
Foi-se o bamba na passeata,
a camisinha estourada.

Verdade que o buraco é fundo?
Último domingo não parecia ser.
Verdade que se acaba o mundo?
O fogão de barro se nega esfriar-se.

Meu desejo é confessar-me temente
à simples natureza das coisas –
ao pé da futura jabuticabeira
descobrir-me então maduro.

À beira de perceber na sombra
da linda segunda-feira
que eu sempre fui feliz.

CRiga.