terça-feira, 2 de julho de 2019

Oficina


É proibido.
Esta tarde sempre tão fria
é um prenúncio do que não pode.

Não pode é eu sentir o vazio
de homem crescido inventando a dor.
Quando eu era menino
até gostava da Sessão da Tarde.

Mas o beijo que não dei na menina,
mais o que deixei de fazer adolescente 
com medo do castigo de um onipresente Deus,
me implica agora esperar a hora
de não morrer assim em vão.

Arquivaram o vídeo tape dos meus erros.
Mas qualquer dia a merecida conhecida sentença
vem de novo me sentenciar.

Cabeça vazia
é Deus quebrando tudo
na paz da minha oficina.

CRiga.

Me dá a mão


Crise é quando o semáforo na esquina
chegando à padaria do português
não te dá cor nem rumo.

É o qualquer lugar tá valendo
desde que não atropelado...

CRiga.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Doxepina



Corredor sem fim
rostos embaçados
vozes abafadas
câmera lenta
areia movediça
calafrio, frio
letras dançam
lábios moles
vida torta
vida acaba
de renascer tão morta...

CRiga.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Sem ponto cardeal


A nova era já era
e o novo erro é mero acerto.

Não há caminho certo, nem perto.
Aperte o cerco 
do esterco nasce a rima.

Acerte o ponteiro   
porque o poeta é certeiro
e sem direção.

CRiga.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Rimar amor com travesseiro


Há perguntas que de tão simples
armam tempestades.

Você me ama?
Por que não gosta mais de mim?

Nem flores nem dores adiantam.
A esperança, a bonança,
rima pobre, roubada poesia,
nada depois de hesitar.

Há respostas que de tão francas
devolvem as coisas no lugar.

Eu não te amo.
Eu não gosto mais de você.

Sem desvios sem rodeios,
seta que aponta firme e certeira
a estrada à beira do precipício –
rota difícil, a vontade é de pular.

Há amor que de tão confuso
não sente nem sabe
se ama de verdade –
não mente mas omite
insiste corrigir e fica sem sentido
na insônia de um coração partido.

Há amor que de tão autêntico
não mente nem acena,
é seco para o sim e para o não.
Não sente pena, diz a verdade,
dorme o sono de quem ama
simples, sem vaidade.

CRiga.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Sonho espírita


E eu pedia tanto, suplicava os teus olhos,
quando é que você vai me dar teu coração?

Você agora era a parte amor
do teu pai tirano –
em outra vida como mulher eu o segurei
só por tua causa
e morri nas suas mãos.

Agora nesta eu só quero ficar contigo
e que ele entenda, estenda a mão
e reencontre sua parcela perdida do amor.

Fica comigo esta noite
esta vida, qualquer vida!...

CRiga.

terça-feira, 25 de junho de 2019

A festa


Dali em diante, fêmea decidida,
tomaria todas as bebidas da festa.
Amazona bruxa louca varrida
varrendo homens de sua vida.

Glicose na veia nunca faria efeito.
O coma na cama nunca levaria
esta espécime rara da natureza.

Nada a deteria, nem os olhos azuis
nem novo romance de guardanapo.
O vestido curto vermelho já incomodava,
queria mesmo era o moletom de domingo.

Pra puta que os pariu os caralhos!
Pra que lágrima se o corpo não dói?

Rodou o gelo no copo de whisky
e uma pontada gelada no peito
acordou o bicho mais sangrento:

Solidão rangendo
mordendo dentro
comendo um salgadinho frio
e um coração sem jeito.

CRiga.