quarta-feira, 20 de março de 2019

Carpintaria


Melhor a ignorância santa
que canta aos redores das tragédias
que mente por ingenuidade
que sente medo de perder.

Que não pensa em futuro
que comete a bondade
na veia do desengano
sem saber por amor
desenganar.

Se for para o mundo sugar
e fazer renascer o bom,
o ignorante carpinteiro,
haverá um sol
uma varanda
e uma canção pra assobiar.

CRiga.



terça-feira, 19 de março de 2019

Uma vírgula no tempo

A cabeça ferve letras, letrinhas.
A louça grita na pia, intrigas.
E eu insisto, aumento a fervura
da panela de pressão das ideias
enquanto corro o teclado
à procura de trincheiras.

CRiga.

segunda-feira, 18 de março de 2019

Namoro

(foto de Cauê Rigamonti, 18.03.2018, 
Parque Municipal Dom José, Barueri)

Procura-se alguém que diga:
“se você morrer, quero morrer também!”

Procuram-se mãos dadas
e sílabas caladas
num olhar de praça de domingo
sem ter o que fazer.

Procuram-se primeiras vezes
e desvios na rota do trabalho.
Entregar as rosas vermelhas
roubadas daquela vizinho
que fura a bola dos meninos.

Procura-se sabor morango
sorvete derretido
de tanto só olhar,
de tanto só falar de amor.

CRiga.



domingo, 17 de março de 2019

Bairro


Havia muitos quarteirões,
mas o trajeto automático da bicicleta
era sempre aquele quadrante exato
a rua exata, aquela casa.

Uma vez descemos a rua
mãos dadas, eu olhava pro asfalto.
Outro dia a consolei lá embaixo
dedinho machucado pelo rolimã.

Mas eu tive de mudar, tristeza,
atravessava bairros pra ver a menina.
E ela não sabia (ou fingia não saber)
por que tanto eu caminhava.

Um dia chamei a menina de “beleza”,
coisa de criança, correu atrás de mim.
Fui embora, vergonha, demorei pra voltar,
sofri as dores de moleque com saudades.

Paixão de infância falou mais alto
e voltei,
mas a casa vazia me esvaziou...
“Foi embora... pro Rio, parece...”,
disse uma amiguinha, olhos sem atenção.

Desde então cresci, vários amores.
Cresceram também as casas,
sobrados e edifícios.
Semáforos, contramão, buracos e desvios.
Tudo ficou difícil.
Tudo ficou proibido.

Estes dias passei por lá de carro,
e meu filho mal deu bola
à minha história de primeiro amor.

CRiga.



sábado, 16 de março de 2019

Ampulheta


Observo e desejo ondas
apenas ondas que vão e vêm.
E não percebo que a areia
praia da juventude
um dia acaba cedo demais.

CRiga.

sexta-feira, 15 de março de 2019

A pressa, a angústia


A pressa te deixa presa fácil.
O velhinho anda na calçada,
a criança brinca no parque.
Teu ritmo é teu, o mundo não gira
pra parar na tua urgência.

Certo dessa forma apenas
é o envelhecer mais cedo,
é a birra procurando bronca.
Tua pressa só vai te jogar mais rápido
na boca do pombo da praça,
no inferno da doce amarelinha.

CRiga.



quinta-feira, 14 de março de 2019

Psicanálise


Parece que sou mesmo assim, como todos. 
Não veem a dois palmos do nariz
um em cada direção.

Eles têm seus erros
têm até seus podres, quem não?
Não é questão de perdoar
é questão de não amar.

Agora parece que é assim.
Sempre quando há palmos debaixo da terra
dizem
é que o amor grita sozinho no cemitério.

Ou quando tão frágil feito criança
numa cama ou à beira mar
inventa de contar segredos
ou pedir perdão.

Eu não sei. Eu não sinto.
Há filhos que sentem a falta dos pais.
Será que sou mal?
Será que sou pai?

Será que o coração só funciona
quando a gente vira de volta a ampulheta?
O menino que era amável
é apenas um homem perdido em si.

Ora, vamos, então me arrume um dos seus problemas
dilemas de livros empoeirados na estante
pra finalmente eu poder culpar alguém.

CRiga.