sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Congelaram um coração


Alguém no céu
raspa uma estrela
colhe o cristal.

Na jornada o brilho nas mãos,
na terra firme o fogo morto
da paixão que congelaram.

Assoprou, então, o pó que restou:

desperdício, desperdício...

CRiga.



quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Um Brasil sem voz


A Voz do Brasil
no rádio aqui de casa
era sempre de manhã.

Ficamos roucos.
Mudos.
Um parente que se foi.

Ninguém mais vai falar pela gente
nos ouvidos dos tiranos.

O verdadeiro Brasil perdeu sua voz.

O que será de nós
passará hoje à noite
naquela chata Voz do Brasil...

Para Ricardo Boechat

CRiga.


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Separação


São as pétalas que descolam
caem antes do tapete ao altar.
Ervas daninhas são o jardim,
antes cúmplice da cumplicidade.

O peixinho morreu, boia no aquário,
e até o gato chora a falta de fome.
O vizinho quer encher o saco,
quer botar o copo na parede...

Não há louça empilhada na pia,
par ou ímpar, não há mais refeições.
Não levaram as crianças pra escola
triste folga, vamos brincar lá fora.

O quarto escuro cheira a suor envelhecido
e o espelho do banheiro foi quebrado –
azar maior é visita sem aviso,
compromisso de diretoria.

Retratos que sorriem pares da memória
estão virados sobre o pó da estante.
Há um instante em que morrer é bom,
mas há também um som diferente
pra cada lágrima que cai.

Eu hoje esqueci você um pouco mais
que o quase nada de um ontem qualquer.

CRiga.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A tristeza é senhora


Vezes bate na gente
aquele saudosismo de moço bobo
perdido do outro lado da rua.

É só atravessar, meu velho,
desafiando motoristas loucos.
É a sua vez, a gente já foi moço demais
pra correr dos carros poucos.

Solidão é que apavora!

Medo de atravessar a rua
é mais o de não encontrar ninguém
do outro lado
do que morrer atropelado.

CRiga.


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Fantasmas numa manhã de chuva


À cama como se fôssemos ainda amantes
ouvindo aquela linda balada do rock noventa.
E percebo, você não pode mais ficar
vamos embora, a noite precisa acabar.

Mudara a foto do porta-retratos
e eu te amei como da primeira vez.
E eu me vi mais uma vez o garoto bobo
num corredor de escola dizendo não.

Tudo invade feito onda reversa
depressa, coloca o disco da Marina!

Preciso sentir o cheiro da chuva lá fora
ouvir os pneus contra o asfalto molhado.

Recuperar-me o bom moço a correr nas ruas
com o tempo todo pela frente
para também acertar nos passos.

CRiga.



terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Tristeza


Desfila sorrateira
às vezes montada no cavalo
do duro monumento no Ibirapuera.
Ou estampada nos olhos do anjinho
da cafona fontezinha do bulevar.

É uma respiração profunda
tentando dar ritmo ao dia
e ao coração cansado.

Câmera lenta, você tenta engolir,
é café amargo amanhecido.
Um drama de atores sem fama,
uma cama que não quer te largar.

Pousa nos teus ombros as mãos pesadas
enquanto em frente a um computador
você se pergunta como se deletar dali.

Marca com as unhas pretas por dentro do peito
feito prostituta velha, bruxa fedida.
Gata preta no cio te gritando
lá no fundo da cabeça que pesa bigornas.

Beija sabor sangue, congela o estômago,
amarga a garganta, chuta os testículos.

Sopra um vento polar na nuca,
parece que nunca existiu verão.

CRiga.