quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

A hora


Um grilo confunde a noite.
Seria a paz, não fosse a morte.

Carros batem ao passar sinais vermelhos.
O sogro sangra no punhal o genro insano
sem grana pra comprar a droga.
No parto a mãe sorri ao filho
dizendo adeus, ela sabia, operação arriscada.

Seja estúpida, rasa, sem graça.
Seja injusta, em casa, na praça.

Uma certa paz de toda a forma ressurge
dizendo verdades e besteiras no funeral,
enquanto aos poucos a morte se envergonha de você
ainda vivo, à espera ou fugindo
fingindo ser imortal.

Uma cerveja no dia seguinte, que sorte!
Mas um grilo confunde a noite...
Seria a paz, não fosse a morte.

CRiga.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Crédito fotográfico


Troquei teu nome...

E o tempo que nunca se abrira
em qualquer fotografia,
trancafiou-se para sempre
entre selfies e retratos.

CRiga.


Um brinde a quem caminha


Há caminhos, caminhante,
trilhas, atalhos, avenidas.

Há vidas que se cruzam, encruzilhadas,
a dúvida no passo também é normal.

Há o mal, e ao lado não o bem:
há ali você também
mãos dadas ou num adeus.

Há mágoa e um rio doce,
deixe a água pura te embriagar,
te curar, todo dia é um novo batismo.

Há remédios e receitas de bolo,
bulas, mapas, livros de poesia
e alguns manuais de pra te autoajudar.

Há máquinas que não param de trabalhar,
trabalhadores que não param de maquinar
como sair, como amar num turbilhão.

Há dívidas que a gente paga de coração,
há outras que não aceitam nosso perdão.

Há no fim do arco-íris uma sexta-feira de sol,
uma flauta doce, um Ravel e um rock and roll.

Há uma mesa reservada, a bebida é gelada,
a sede de viver permanece aquela mesma.

E há no fim um novo começo,
tropeço, joelho ralado, um lado que dói.

Mas há caminhos, caminhante,
trilhas e atalhos como antes.

CRiga.


terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Dois sonhos (e um amigo)


Via que Soraia te ajudava a caminhar. Seminu, havia a anunciação de uma aposentadoria e também um sorriso de alegria, você voltaria a desenhar para os seus engenheiros!  Casa pequena, dorzinha melancólica, mas uma esperança linda de resgatar talentos no AutoCAD.

Depois te encontramos na praça, mão direita dada ao pequeno Yan e teus olhos grandes de uns óculos fundo de garrafa pós problema de saúde. E eu abracei, chorei na tua velha blusa de lã a felicidade de você ter se curado de não sei o quê!

Tantas coisas acontecem na nossa vida, assim, sem explicação. Assim como dois dias seguidos de sonhos com o mesmo amigo-irmão. E uma pontinha de culpa porque a distância é a gente que faz...

Acho na verdade que todos nós somos estagiários nessa vida. A gente começa estagiário, vira dono de um castelinho lindo de areia, volta pro bar do calçadão e se embriaga na cerveja fresca. Gasta todas as tintas em cadernos azuis e botamos herdeiros no mundo – daí uma bicicleta atropela a gente na ciclovia porque não lemos a placa estampada de simplicidade.

Há sete estrelas dissipadas no horizonte. Discretas, estrelam suas constelações. De vez em quando, uma candente vai parar no quintal dos sonhos da outra. E é aí que a gente acorda no meio da noite querendo dizer coisas que nem a gente sabe, porque a linguagem é cósmica demais para a vida pouca que vivemos até aqui.

Sejamos, então, eternos estagiários! Melhor aprender de novo o novo, porque de velhos bastam os conselhos que a gente insiste dar pros filhos, e pra gente mesmo no meio da madrugada insone.

Melhor mesmo é beber com amigos nas estrelas. É o jeito que a gente tem pra dizer que ama alguém!

Para o meu grande amigo Marcelo Gomes Cardoso Tchubi

CRiga.



Ritmo do envelhecer


Coloquei nos olhos o sal
lágrimas de fel sem gosto.

Faz tempo que a gente não chora
não cora, sem vergonha.

Faz dias que a vida corrida
é ferida que volta a coçar.

No final do mês o vil metal
nada vale o que não vi.

No final da vida o arco-íris
lado errado sem pote de ouro.

Ritmo é o barulhinho do teclado
ao lado os vizinhos fazem amor.

CRiga.


segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Um dia de cada vez


É o que te resta no dia seguinte
depois da coragem dos vinte.

É o que te testa e você aguenta
depois da resiliência dos sessenta.

O que resta é muito.
O que testa também é.

Nunca é muito tarde
acordar e caminhar na praia
um dia de cada vez.

A festa no dia será o sol sorrindo
o rei nu te levando ao canto fresco
na arquibancada da arena.

E o sono na fresta da noite será a lua
a noiva que te conta num poema
aqueles segredos de virgem
que você já sabe tão bem.

Para Gilberto

CRiga.



quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Solidão dos dedos


Ácido
o passado às vezes corrói a pele
e eu sinto, sinto muito –
as mãos calejadas perderam o fogo
escondido entre as tuas pernas.

De um outro lado você passeia os dedos loucos
à meia-luz, sozinha
à frente da tela de um computador.

E eu sei, há a dor
ácida navalha sangrando lágrimas
num gozo frio de solidão.

CRiga.