terça-feira, 9 de outubro de 2018

Daltônico (segundo turno)


O diabo amassa o trigo
pra fornada patriótica,
e Deus amansa a massa
pros discursos da patrulha.

Dá de comer ao Brasil
arroz com feijão sem pimenta
um grão de conhecimento
um sorriso de criança
uma rosa perfumada
qualquer que seja a cor –

apenas flor, nada mais,
não vigie nem invada
meu daltônico jardim.

CRiga.


segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Não deixe aquela ideia de poesia fugir!



Está ali, ao lado do sofá
que a gente já não curte mais.

Cerca, entrou no vaso vazio
preciso comprar uma flor.

Mata, correu pra trás da cama
não durmo nunca mais com você!

Está no quarto das crianças, brinca
elas vão correr atrás de você também.

Não deixa passar pela sala sem perceber
fiz meu cabelo só pra você.

Não joga fora assim
você pode me machucar.

Queima então
mas dois peguinhas só.

Desarma a ratoeira
não precisa mais depois de tanto tempo,

faz tanto tempo que te amo!

CRiga.



quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Debaixo da tua saia


Vou perdendo a veia violeta parra.
Do tinto vinho o melhor é o mais velho
só para o velho, só para o velho...

Vou perdendo a poesia na marra.
Vendendo palavras encaixadas
encaixotando os velhos versos
submersos.

Mudar é necessidade, trabalhar também.
O amor é um porto cujo interruptor do farol
está nos navios que naufragaram
e já armaram tempestades.

Vou remando o norte que as palavras me dão.
Sorte maior é não morrer na praia
na barra da linda saia violeta
da poesia que me guarda no cais.

CRiga.


Poema que saiu, foi embora


Descuido da rota, vou parar bem na porta da tua casa. Antes de bater sabendo que não atenderia, me recebe com flores às mãos. Vinho, uma vela sobre a mesa, o jantar está posto para dois. Eu me confesso, "sou pecador, te esqueci, amaldiçoei teu nome por onde andei". Por onde andei apaguei tuas pegadas me seguindo, eu era mais uma criança com medo da piscadela daquela negra Nossa Senhora Aparecida de barro da minha mãe.

Levanto a flor ao altar, comungo do sangue de Cristo mas o corpo eu mastigo, desaprendi as aulas de catecismo. Eu era mais puro. A igreja ainda é bonita, mas são apenas tijolos e cimento, imagens e vitrais, confessionário e sacristia, fria, fria. Eu tento me sentir em casa, não faço o mal-educado, agradeço. Mas saio à porta aberta, sigo meu caminho deixando você mais uma vez pra trás.

Zeus também me deu o vinho de Baco, um saco essa história, um porre, me embriaguei. Não tenho mais idade pra tomar esporro beático, nem mais paciência pra sair batendo cabeça nos postes à procura de reacender luzes queimadas do caminho. Eu caminho como quem não precisa fazer mal a ninguém – nem a mim mesmo.

CRiga.


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Cover song


Vozinha débil.
Jeitinho delicadinho.
Cabelinho bem cuidado.
Sorrisinho mui discreto.

Lindos diminutivos!

Mas no final
um bom psicodélico dos oitenta
te entorta perdida na imagem
no meu caleidoscópio.

E eu não vejo
mais que uma menina...

CRiga.



terça-feira, 2 de outubro de 2018

Juventudice hippiezinha (“gratidão”)


Forço sorrisos bobos pra devolver
estes hippies pirulitos coloridos
enjoativos
dos olhares que perguntam
“tudo beeem?...”.

Forço bons ouvidos pra ouvir
os “tudo bem, grãçãs a deusss...”,
feito gravador com defeito
que também erra no auto reverse:
“grãçãs a deusss, tudo bemmm...”

Tenho melancólico orgulho
da minha infelicidade aparente.
Ela não mente, não precisa
e não quer mudar o mundo
nem ninguém.

CRiga.


segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O circo pelo pão


Tem que gostar,
fingir gostar
ou forçar-se a gostar.

Como a fotografia não mente
todos sorriem e se abraçam pra lente,
num mundo perfeito de flashes
e notas sociais.

Nesse circo,
ao lado da querida autoridade paralisada,
os pobres desdentados também sorriem
seu momento de glória maior.

Na manhã seguinte
apreciam as notícias do dia –

uns com seus brioches
rindo e falando mal,

e outros com o pão de ontem
trocado por foto
na coluna do jornal.

Tudo parte
desse grande teatro social.

CRiga.