terça-feira, 28 de agosto de 2018

Não mais a gente no sofá



Polir os discos que ficarão pra você.
É bom lavar de vez quando.
O tempo junta pó nos sulcos
risca solos de guitarra  
apaga sorrisos de fotografia.

Ensinar a ligar a vitrola.
Não é legal colocar no automático.
A alma vive do preciso exercício  
até a faixa certa
até o ponto G.

CRiga.



A ditadura da desconstrução



A mesma velha receita do destruir –

discursos combinados
ataques arranjados
um vale-tudo que engole
o caolho que tem fome.

CRiga.

Escritório na varanda



A cabeça ferve letras, letrinhas.
A louça grita na pia, intrigas.
E eu insisto, aumento a fervura
da panela de pressão das ideias
enquanto corro o teclado
à procura de trincheiras.

CRiga.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Chuva de agosto



Esta sexta-feira chove o mesmo pouco
de como a milésima vez quando morri.
Isso foi há milhares de anos...
A gente se conheceu mil vezes,
mil vezes lamentamos infortúnios,
desencontros.

Nunca superamos o calor da pele
que nos envolvia pelos eriços
num abraço de calar tempestades.
Os mistérios se engoliram em furacões
que desistiram de nos gritar.

Nunca dissemos palavra que selasse
no topo da escadaria
a paz que inventamos pra chegar até ali.

A igrejinha ruiu, ficamos no meio da romaria,
ainda a cruz se arrastava na terra batida.
Era aquela quermesse que não te beijei.

Nunca olhamos nossos olhos refletidos
a cada volta no pátio da velha escola.
Éramos então mais uma vez iniciantes
fingindo primeiras vezes de se apaixonar.   

Depois éramos humanos suburbanos
levados pelos ônibus lotados a qualquer lugar.
Quando pude, perdido atrás do volante,
a carona levava também um pai que ia embora.
Não era a hora de a gente se acertar.

Aquela rua não ruiu mas ficou vazia.
Eu perdi a milésima esperança
e fui embora.

Esta sexta-feira chora
a milenar chuva que alagou o planeta.
Foi a época quando eu perdi você por aí
sem nunca de fato a gente ter-se.

Dilúvio é bobagem, meu amor.
Pior é eu chorar pouco assim pra sempre
querendo te encontrar...

CRiga.


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Ele não era um cara legal



Eu não vi as flores nascendo do asfalto
que é só onde sei procurar.

Na mesma galeria ninguém me disse nada
algo que eu pudesse guardar.

Eu não ouvi a música da moda
nem sou o idiota popular da roda.

Eu sou é o vidro que corta
em vez do falso brilhante.

CRiga.


sexta-feira, 17 de agosto de 2018

O missivista


Meu antigo amor,
minha amiga, meu sonho que passou.
Recheado e enfeitado
com tudo o que aprendi.

Nada aprendi!

Minha doce impressão
de amor abandonado na esquina.
Por que só quando a gente envelhece
sonhos resolvem nos corroer
e os olhos aceitam o perdão?

Não me reencontrei.

Eu perdi a ideia de quem és.
Perdi rumos, ouvi rumores.
Um cabelo feito pra reconquistar
e uma juventude toda pela frente,
recomeçar.

Minha cara, meu segundo rosto.
Te escrevo o sangue inútil
deste cansado coração sem mais letras.
Aguardo novas notícias tuas
num selo carimbado de ilusão.

Triste coleção.

CRiga.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Casulo


Há uma sensação que persigo,
abrigo, dever cumprido.

Há uma sensação que devo muito.
Perigo, eterno medo de desiludir.

Ninguém nunca me viu por dentro.
Daqui saem etílicas borboletas,
secos dragões sem fogo cujos sorrisos
são sinceros e preocupados.

Haverá memórias de fogueira.
Distantes, não farão revoluções.
Dúvida é se existirá um jardim amnésico
cujas rosas não peçam documento
pros beija-flores da madrugada.

Eu tenho idade, só não tenho tempo.
Quero beijar sem culpa, de barba,
voar sem horários de museu.

Não quero crianças fingindo interesse,
nem a cor forçada na exótica fotografia
calando as verdades das minhas rugas –
elas poderão com falsa propriedade
recitar poemas e apenas te enganar.

Nunca pisei o chão da maioria dos pés.
Nunca vivi o tempo das verdades eternizadas
enlatadas numa festa de jubileu.

Eu durmo num casulo eterno.
Inferno pra mim
é me tornar.

CRiga.