terça-feira, 22 de novembro de 2016

Veneno


Talvez a malquerença faça ferverem na pele
as erupções – os vulcões são implacáveis.

Talvez o mundo em desacordo plante
arames farpados no semblante –
é a idade que correrá mais rápida.

Mal tens tempo de colher os lírios,
portanto faça do tempo e do vento
o voo perfeito – sem acento – à imperfeição.

E no afinal,
fora a grana escapando das mãos,
um terceiro lugar não é tão mal assim.

Fora a vagabundice que fede pelo ar,
quem mais atrapalha o teu dia
és tu mesmo, afinal.

É preciso ter um olho apenas
do que sete buracos na cabeça.


CRiga.


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Poema que saiu, foi embora


Descuido da rota, vou parar bem na porta da tua casa. Antes de bater sabendo que não atenderia, me recebe com flores às mãos. Vinho, uma vela sobre a mesa, o jantar está posto para dois. Eu me confesso, "sou pecador, te esqueci, amaldiçoei teu nome por onde andei". Por onde andei apaguei tuas pegadas me seguindo, eu era mais uma criança com medo da piscadela daquela negra Nossa Senhora Aparecida de barro da minha mãe.

Levanto a flor ao altar, comungo do sangue de Cristo mas o corpo eu mastigo, desaprendi as aulas de catecismo. Eu era mais puro. A igreja ainda é bonita, mas são apenas tijolos e cimento, imagens e vitrais, confessionário e sacristia, fria, fria. Eu tento me sentir em casa, não faço o mal educado, agradeço. Mas saio à porta aberta, sigo meu caminho deixando você mais uma vez pra trás.

Zeus também me deu o vinho de Baco, um saco essa história, um porre, me embriaguei. Não tenho mais idade pra tomar esporro beático, nem mais paciência pra sair batendo cabeça nos postes à procura de reacender luzes queimadas do caminho. Eu caminho como quem não precisa fazer mal a ninguém – nem a mim mesmo.

CRiga.

“Bom dia”


Boa tarde, na verdade...
O passo é aquele desapressado de praia,
e não tem nem como não notar – 
são vagabundos pelo ar.

Eu deveria cuidar da minha vida...
Mas há um monstrinho guardadinho
de nome “Senso de Justiça”
que durante o dia me apavora.

É hora de me purificar...
Não posso alimentá-lo demais,
mas não quero matá-lo de fome –
até que gosto desse monstrinho!

Bom dia, Godzilla.

CRiga.



quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Alma de poeta


Dá-me às vezes preguiça falar contigo. De arrancar-te os segredos, fazer-te despertar desse hipnotismo regado à seiva ácida do cotidiano. Chacoalhar-te do sono irritante. Ferir-te com a faca cega.

Dá-me trabalho te procurar. Muito mais fácil quando gritas geralmente numa manhã chuvosa, ou quando inventas de fixar o olhar num encanto fora de seu alcance, melhor assim – sangras de uma vez as letras contidas nos cabelos, nas cores da pele, entre as pernas, no jeito de ser.

Dá-me prazer abrir-me contigo. Tuas respostas nem sempre convenientes me pregam na doce cruz de um sofrer quieto, nas linhas do diário. Tu és por vezes uma romancista, outras uma irrequieta observadora, outras amante. És perfeita em tua imperfeição de psique duvidosa, este monstro que perturba a verdade dos contos de fadas sejam eles do jeito que for – psicóticos, eróticos, sociais, banais.

Embriago-me só de abrir a rolha do teu nobre vinho, me toma o corpo a forte fragrância do vidrinho do teu perfume quando o cristal se estilhaça na minha busca pelo sentido de viver. Mas às vezes o cheiro vem do campo, outras do pescoço de uma mulher, várias outras do asfalto molhado pela chuva. O gosto? Ácido sulfúrico, o vinho francês que nunca tomei, a maçã do pecado que não acredito mais. Texturas de veludo, sempre.

Enlouqueces-me quando não me respondes – daí cometo o ato derradeiro de te amaldiçoar em todas as noites e dias simplesmente parados num quadro sempre igual, mas com cores variadas; falo mal de você nos cais, boto uma rima do dicionário pra convencer a história, e me acho o tal quando tenho a certeza que matei você de vez, não mereces minha devoção...

Mas és imortal! Deliro quando vens então semicadáver, arrastando vísceras e ainda carregando um caderno azul! Tomas a adaga da minha mão, e me cravas no peito correções escritas com meu sangue. Nosso sangue. E revives, me matas de pulsos pulsantes, quase um infarto de letras que saltam. És traiçoeira quando te acho, e tu me entortas feito Garrincha – seguir-te, então, assistir ao gol e vibrar com a arquibancada completamente vazia de nossa simples imaginação.

Pronto! Já não há mais palavras. Então sorris o sorriso da marotice, borboleta de primavera, cânticos de águas cristalinas na corredeira. Uma varanda de missão cumprida, duas cadeiras de balanço, crianças crescendo no quintal.

És finalmente alguém em que se pode confiar. Ou nunca confiar. És finalmente alma. Finalmente poesia.


CRiga.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Forró das almas


Chovesse
um diazinho só a mais 
do que eles suplicam nas canções,
seria talvez enchente
inundando a arte da gente.

Por isso, na pobre terra da garoa,
melhor apenas no trio de instrumentos
continuar ignorando leis de Deus.  

Pelo menos haverá música pra cantar
num baile de um domingo agonizante –

uma esperança boba, dissonante, 
de um milagrezinho qualquer 
mas que seja molhado 
não do pranto, do triste canto
de quem tem sede só de água.


CRiga.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Panquecas


Meu bem, vamos fazer panquecas
que no mundo não há
nada mais adequado agora.

Pra uns a hora é de morte,
outros, comer num bom restaurante.
Mais outros, de armar a arma covarde
e indiferente matar de fome
ou diferente da bala doce.

Meu bem, vamos fazer simples panquecas
daquela marca muito velha:
“Faça amor não faça guerra”.


CRiga.

Melhor a ignorância santa


Melhor a ignorância santa
que canta
aos redores das tragédias,
que mente por ingenuidade,
que sente medo de perder.

Que não pensa em futuro,
que comete a bondade
na veia do desengano
sem saber desenganar.

Se for para o mundo me sugar,
e eu renascer ignorante carpinteiro,
haverá um sol,
uma varanda,
uma canção pra assobiar.


CRiga.