quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Estamos em obras

 


Eu preciso chorar
E eu tenho lágrimas.

Eu peguei outro rumo
Porque outro rumo não havia.

Eu mudo as nossas coisas de lugar
Pra provar que você não continua aqui.

Eu atravesso a madrugada de segunda-feira
Enquanto não sei se você
Também não consegue dormir.

Conseguir é apenas um verbo
Amplo, fugas.

Ele não existe
Como eu.

CRiga.



sábado, 13 de setembro de 2025


 

Polyvox

 


Há uma voz em nós
Que às vezes é urro
Outras é sussurro
Que grita, incita

E também canta
É santa no Padre Nosso Ave Maria
Brisa que sopra na calmaria
Trovão que amaldiçoa na tempestade.

Uma voz que acalma
Que excita ao ouvido
Que se lê nos gestos
Que se engole, sapos.

É rouca no inverno severo
Pouca na tristeza que consome.

Suave no drops de cereja
Arrepia na surpresa da paixão
Assusta quando é não
Apaixona de novo no tudo bem.

Uma só voz, uma voz só
Um coro de gente que protesta
Um coral que anima a festa
Que acompanha a procissão.

Uma voz que diz o caminho
A voz que fala com o coração.

CRiga.



terça-feira, 9 de setembro de 2025


 

Insepultos

 


Somos culpados por esse gosto de vinho seco
Que morre na boca sem o beijo.

A sensação do fogo contido
Do erro, do engano fingido
Do gaguejar, do quase chorar num corredor qualquer
Da vaga memória do coração partido.

Tua foto de óculos pra disfarçar o passado
E minha foto sem espírito, com sorriso universitário...
Cicatrizes que teimam sangrar marcando passos.

Somos condenados
Por esse morto enterrado em cova rasa
Sem justiça, sem defesa.
Jaz na terra um aro preto já quebrado.
Jaz na lápide um sorriso triste desbotado.

Tempos assim de triste outono
Da terra fofa nascem as letras cinzas
Plásticas flores que a gente sempre rega.
Então ao pé da cova a gente para e reza
Queimando as testas nos tocos de vela.

O sangue e o vinho se misturam na lama
Depois de a chuva densa encerrar a tarde.
É a hora de apagar as letras e podar as flores,
Apagar as velas e podar as dores
Fugir às pressas e chorar baixinho.

Pois somos apenas os culpados
Por esse gosto de passado insepulto
Gosto seco
Feito o beijo que a gente não deu.

𝐂𝐑𝐢𝐠𝐚.