sexta-feira, 23 de maio de 2025

A chuva dos cinquenta

 

(foto de Cauê Rigamonti, jan/2019)

Enquanto a chuva cai num chavão eterno
Minha rima no inferno quer se afogar na certeza
De que o excesso vale mais que o impresso velho
Colado no poste mijado pelo vira-lata amigo.

O conhaque sob o sobretudo denuncia –
São Paulo ainda é a mesma amiga linda e traiçoeira.
Eu me apaixono e alguém me derruba fácil na sarjeta
Só com um desvio de olhar esguio.

Quando eu morrer, Mário,
Quero sirenes nas lojas de discos que não existem mais.
A inocência daquela juventude de não ter como voltar pra casa
Na madrugada depois da noitada embriagada de esperanças.

Eu acariciava seu rosto com as costas das minhas mãos,
Havia a poesia serena de um filme italiano.
No pulso fino havia um reloginho que foi roubado,
No peito lindo havia um segredo nunca desvendado.

E eu, garoto dependurado nos ônibus das madrugadas frias,
Não me importava com nada nada.
Atravessava cidades no meio da semana que não me cansava
Só pra ver você sorrir pra mim.

Hoje a chuva cai distraída, provoca um ai.
Cada gota que cai pesada
Parece uma lágrima que um dia eu chorei.

CRiga.




quarta-feira, 21 de maio de 2025


 

THE AFGHAN WHIGS - “BLACK LOVE

Por simples curiosidade, por causa da capa, comprei o “Gentlemen”, CD anterior da banda. Gostei muito. Daí lançaram o seguinte e não titubeei – levei pra casa. Considero uma pérola perdida nos anos 1990.

CRiga.

Da série "Discos que Marcaram".

 

Mil dias antes de te conhecer

 


Enfim a gente encara porque a cara cansada
Fez a barba.

Enfim a gente se embriaga porque a bebida
É a mais barata.

Enfim a gente se encontra de novo na noite –
A gente plantou encontros dissonantes.

Enfim o jardim deu aquela flor.
Como é maravilhosa a impossibilidade do amor.

CRiga.



terça-feira, 20 de maio de 2025


 

THE BEATLES - “A HARD DAY’S NIGHT”

 


O primeiro “disco de rock” que de fato ouvi na minha vida. Um vinil da minha mãe, o de capa vermelha, selo azul da Odeon, de 1964, bolachão grosso. Eu colocava às tardes na velha vitrola da casa no Campo Limpo. Virou minha cabeça!

CRiga. 

Da série "Discos que Marcaram".


Alma do Tempo

 


João pergunta a Maria:
“O que temos para comer?”
Maria, seca no olhar, responde:
“Nada, não, João...”

Eis que os olhares encontram
O brilho da colher polida
Presente de casamento
De um amigo que morreu solteiro
Sem pai nem mãe
Sem ninguém pra dividir a dor.

E eis que fala Maria a João:
“Te amo, mesmo assim...”
E João, molhado o olhar, responde:
“Te amo também, para sempre!...”

CRiga.