quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Pacto

 


Não sou santo
pastor
nem bom cristão
.

O marketing ganha dinheiro
inventando cartilha de político
e reza de religião.

CRiga.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Ele não era um cara legal

 


Ele não é o cara
dos grandes feitos.

Nem o cara
que tudo arranja.

Ele não é o cara
que conta piadas.

Nem o cara
que vai salvar a festa.

Ele não é o cara
do tapa na cara.

Nem o cara
pacifista da manifestação.

Ele não é o cara
que toca guitarra.

Nem o cara
que gosta da sua música.

Não é o cara
da esquerda.

Muito menos o cara
da direita.

Não é o cara
da moda.

Nem o cara
popular da roda.

Ele é o vidro que corta
em vez do falso brilhante.

CRiga.



segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Cigana

 


Não poderás mais escrever poemas,
pois tuas mãos ficaram entre as minhas pernas,
e dentro de mim compunha
o que poeta nenhum ainda conseguira
descrever em simples palavras.

Não poderás mais cantar tuas canções,
pois tua língua ficou nos bicos dos meus seios,
na minha língua, nos meus lábios,
boca, pescoço, peitos, ventre, púbis,
até a eternidade!...

Não poderás mais ver o pôr-do-sol,
pois teus olhos viram meu espírito
viver no teu corpo e sentir a tua carne,
chorar de prazer quando me tocavas
e de tristeza quando partias.

Tenho certeza, não poderás mais nada!
Por isso sei que voltarás para buscares
tudo o que te pertence.
Inclusive eu.

CRiga.


quarta-feira, 3 de novembro de 2021

terça-feira, 26 de outubro de 2021

O idioma do desejo

 


Não adianta chorar
sobre a bebida derramada
na noite dos cantores.

Bebida doce,
e a menina enrolava a língua
num púbere castelhano
e num inglês de pop sueco
moreno latino americano.

Nem teve a chance
de enrolar a língua
também por doce embriaguez!

Não adianta se desculpar
pela espanhola derramada
entre os beijos, línguas
que não queriam tradução.

Queriam apenas a luta ardente,
entre as bocas, o desejo –
único idioma então corrente.

CRiga.



quarta-feira, 20 de outubro de 2021

A egotrip da vingança

 


Vou viver no limite íngreme
da minha alma que já não é tão pura.

E se você não vier de branco
feito anjo me salvar do devaneio,
vou ser mármore tão negra.

E se você não sorrir
e se você não me ouvir
e se você não me abraçar
e se você não existir...

E se você não vier?

Se você não vier
vou renascer das cinzas do que já sou.

Eu sou as cinzas que boiam no teu ar,
que aterrorizam teus olhos sem cor
numa trágica noite de inverno,
depois do vento insano sem direção
invadir a tua casa decorada
morango de prateleira.

Só que você, metódica,
limpa a tua casa com talento,
lava o rosto petrificado
com sabonete neutro, água morna
e vai dormir,
como se não existisse o dia
que você me deu um beijo.

Como se eu não existisse,
como se eu fosse pedra vulgar
ou mármore tão negra.

Como se eu fosse ressuscitar
sem limites
no teu seguro lar tão puro.

Como se eu fosse o retrato velho
sobre a triste escrivaninha de cedro
esquecida no sótão escuro.

Como se eu fosse vírus
esperando tua hemorragia
me libertar do desespero.

Como se eu fosse o fóssil
daquele tiranossauro rex
que um dia quis ser bonzinho.

Como se eu fosse fácil,
como se eu fosse frágil,
como se eu tossisse sangue
feito poeta do Romantismo.

Vou viver no fútil limite
desta alma que só queria
ter você de fato um dia.

E se você vier assistir a meu desespero,
vou sorrir sarcástico,
dar adeus com a cabeça,
virar as costas
e voar sobre o penhasco.

E só sobrará teu eco dissonante
entre as montanhas seculares
naquela trágica noite de inverno:

“eu amo você...cê...cê...”

E ficará esperando resposta
no limite íngreme do penhasco,
e ficará esperando eu voltar de branco
feito anjo,
pra te salvar da tentação
de vir comigo devanear.

E ouvirá só o som da lágrima
contra a rocha seca,
que não ressoa eco
nem alivia a dor.

E rezará por mim
e pedirá minha proteção,

e lembrará os dias
em que nunca fui anjo
e quando roubei um beijo teu.

E desejará com a alma
eu não estar te vigiando
e continuar não sendo anjo
só pra roubar outro beijo teu.

E você viverá no limite íngreme
da tua alma então tão negra,

perdida no vale das pedras
mármores tão puras,

perdida nas noites escuras
que eu fundei
enquanto amei você.

CRiga.