terça-feira, 4 de maio de 2021

Estava escrito

 


Passou lotado
bem na sua frente
um descrente.

Aquele da cara torta
que apontava sorrindo
para que lado era porta.

Uma adversária no jogo de truco
na calçada do colégio.

Um colega da contabilidade, de férias.
Nunca mais contabilizei tão bem
os dias faltando de trinta dias.

Era neve a sua pele, sangrou o dedo
brincando de rolimã.
Mãos dadas às minhas, subimos de volta a ladeira.

Ele até que te chamou praquela festa,
na periferia, e você foi!
Mas na hora não entendeu a letra.

Foi furando a fila com um disco novo.
Enfrentei só vaias e só você venceu.

Fui furando o disco de tanto ouvir
que finalmente eu descobri você.

CRiga.


sexta-feira, 30 de abril de 2021

Melancolia em quatro estações

 


Folhas caem corações partidos
no asfalto muito caro da cidade feia.
Houve outonos em que os poetas fugiram
poetar nas mesas de outros bares.

Há um cravo amassado no bolso do casaco.
Barba a fazer, inverno no passeio público.
Um olhar entre procurar rostos conhecidos
e amores imperfeitos.

A moça que colhia flores na praça
não acha mais graça na primavera.
Ontem ela chorou uma lágrima quase seca
saudades do primeiro namorado.

No último dia do verão, dizia uma canção,
“nunca me senti com tanto frio”.
Não houve nem amor pra subir a serra,
pombos decoram o mar impróprio para o banho.

Quem sabe os céus do outono.
Quem sabe o cobertor do inverno.
Quem sabe a leve chuva da primavera.
Quem sabe a breve folga no verão.

Haverá um dia
em que a melancolia
não falará mais tão alto assim.

CRiga.


quinta-feira, 29 de abril de 2021

Filosofia de crise

 


Parado no refúgio de sua verde propriedade
pensa em ângulos diferentes
para que possa viver melhor.

Mas gente que tem fome
não tem espaço nem ângulo
muito menos comida guardada
pra pensar melhor!

Tem às vezes uma cachaça
em vez daquela sua cerveja gelada,
e nem é pra tentar enxergar diferente –
é pra encarar mais uma vez a ferrada de sempre.

Cada um tem sua missão
e oportunidade de seguir.

Mas nem todos têm oportunidade,
então seguir é questão de instinto
de sobrevivência.

Missão é pele na pele e não falar besteira
a quem arranca o couro do próprio corpo
pra fazer parte da estatística positiva
que qualquer governo gosta de positivar.

CRiga.



quarta-feira, 28 de abril de 2021

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Poeta de escritório

 


Não tenho tempo, me escute:

Há um lírio escondido na gaveta
pode ser primavera ou psicodelia.

Meu amor, me ajude a contar histórias
que não relatórios de chatas reuniões...

CRiga.

terça-feira, 20 de abril de 2021

Office boy

 


Quando entrecortava as ruas do centro da cidade
caminhava correndo ganhando o tempo
que mal sabia se lhe devolvia vida.

A energia permitia os excessos da juventude
além de viver pendurado nas madrugadas
nos ônibus lotados.

Deixou passar tantas tantas paixões bonitas
porque tinha olhos de ainda menino
que ousava pedir olhares às meninas.

Desiludiu-se com a menina da turma da tarde
que inventou um pai brabo
pra justificar a paixão pelo menino mais bonito.

Mas teve de presente uma linda namoradinha
todo dia,
e tinha amigos e um walkman.
Tinha dúvidas de existência
que não necessitavam de psicogentes profissionais.

Comprava discos de rock and roll
e presentes pra irmã mais velha
que não sabia o que era trabalhar.

Algumas vezes perdeu pros ladrõezinhos.
Mas continuava nas ruas gastando o tênis
e tudo o que a idade lhe permitia.

Deu um Sonho de Valsa ao avô
na cadeira de rodas, tomando sopa,
numa noite de sexta cujo sábado foi de luto.

Mas foi, ganhou o mundo e até um carro
enquanto perdia um grande amor.

Bateu o carro na entrada daquela velha ponte
onde um dia com viu com a tia
um corpo retirado do rio
depois da violência da periferia.

Mais tarde encalhou o Kadett na enchente da rodovia
porque era cego de paixão.
O pai naquele Natal sabia
que nada era por mal.

Entre Anas e Marias mal resolvidas
foi bebendo uma cerveja e preenchendo seus cadernos.

Entre tantas possibilidades
foi parar na ilha.
Entrecortar caminhos entre um mar e um lar...

Quedê o garoto que pulava poças da chuva na rua?
Quedê os discos comprados vendidos
por causa da falsa sensação de vida moderna?

Que dê algo mais de positivo.
Que dê ainda sentido à correria agora calma
com a alma daquele menino.

CRiga.



segunda-feira, 19 de abril de 2021

Pólvora e hortelã

 


A veia nas ruas do Rio
urra sangue de Sampa
passa frio nas pontes do sul
e é explorada virginal
nas baías do nordeste.

Homens têm poder,
mas é só um deus que tem a força.
Com sua paciência onipresente
ele só assiste a tríades fatais.

Um caixeiro viajante desvia das balas
e leva a hortelã pras crianças da favela.
O Brasil ainda vive
o sorveteiro ainda vende o sorvete
e o traficante ainda vende a droga.

A esperança está no caixeiro que volta
destas esquinas muito loucas,
trazendo a bala de hortelã
com o doce sabor de redenção.

CRiga.