quarta-feira, 6 de maio de 2020

Retórica operária


É o ponto que mesmo o ateu
dá graças a Deus
por ter um prego pra martelar.

Teme até ser castigado,
pecado reclamar.

CRiga.

terça-feira, 5 de maio de 2020

O missivista da garrafa perdida


Meu antigo amor,
minha amiga, meu sonho que passou,
recheado e enfeitado
com tudo o que aprendi.

Nada aprendi!

Minha doce impressão
de amor abandonado na esquina –
por que só quando a gente envelhece,
sonhos resolvem nos corroer
e os olhos aceitam o perdão?

Não me reencontrei.

E perdi a ideia de quem és,
perdi rumos e rumores,
um cabelo feito pra reconquistar
e uma juventude toda pela frente
só pra recomeçar.

Minha cara, meu segundo rosto,
te escrevo o sangue inútil
deste cansado coração sem mais letras.
Aguardo novas notícias tuas
num selo carimbado de ilusão.

Triste coleção.

CRiga.


segunda-feira, 4 de maio de 2020

Amor de ficção


Entregou as flores de um amor perfeito,
ela preferia uma caixa de bombom.

Precisava falar sobre amor,
ela sobre o fim da novela das oito.

Entregou finalmente os pontos,
a voz já lhe faltava tanto.

Comeu o travesso chocolate
recheado de ácido sulfúrico –
virou a linda vilã agora morta
no melhor e último capítulo.

Amor de verdade
é que tem dessas coisas, meu bem –
rosas vermelhas num buquê
e sangue no plantão da Globo.

CRiga.


domingo, 3 de maio de 2020

sábado, 2 de maio de 2020

Distanciamento feudal


Hoje durante a guerra me deu vontade
retornar às minhas terras
abraçar beijar apertar
dois lindos príncipes de meu castelo.

Mas o fantasma do vírus
que invadiu reinos do mundo inteiro
colocou entre e gente
o grande portão da fortaleza.

A gente agora chora nessa guerra...

Mas nunca será pior que a dor
de perder alguém levado por ela.

CRiga.


Faith and cofee


Enquanto houver a gente que acredita
pode ser fé ou café –
a manhã sempre será a vida
esta, que te acontece.

CRiga.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Futilidade


O alimento no cateter de caráter fraco
são os likes de rede social.

"Super legal", e tão banal.

A religião é o culto da personalidade incauta
falsa boneca de porcelana
na selfie cínica narcisa.

Super facial, superficial.

Nos comentários destila o que um destilado estragado
faz ao playboyzinho de baladinha:
burrices, burrices, burrices...

Só superlativos, relinchos disfarçados.

A moda é ser tão fútil quanto a sacola
ecologicamente correta do supermercado
que carrega o papel higiênico usado.

CRiga.