sábado, 21 de março de 2020

Me acompanha?...


Quando na madrugada me vi sozinho
assoviando uma antiga canção,

eu pensei em todos os meus amigos,
meus amores e a minha dor.

Havia felicidade em tudo, tudo!
E a tragédia que a gente constrói,
doente como todo mundo é.

Na madeira confesso sempre
os meus pecados.
Eu cansei de buscar o perdão.

Cansei.

Cantei uma canção.
Você conhece?
Você me acompanha?

A manhã está chegando
e eu tenho medo de ficar sozinho
mais esta vez...

CRiga.


sexta-feira, 20 de março de 2020

Na pressão


A corrente que corre
quase morre –
grita faíscas vermelhas
e lágrimas incandescentes. 

Mas o elo resiste
exausto, para no fim do dia
e abre uma cerveja –

o mundo não acabou
o trem não descarrilou
amanhã tem mais carvão
nessa nossa brava fornalha!

CRiga.


quinta-feira, 19 de março de 2020

Uma vírgula no tempo

A cabeça ferve letras, letrinhas.
A louça grita na pia, intrigas.
E eu insisto, aumento a fervura
da panela de pressão das ideias
enquanto corro o teclado
à procura de trincheiras.

𝐂𝐑𝐢𝐠𝐚.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Namoro

(foto de Cauê Rigamonti, 18.03.2018,
Parque Municipal Dom José, Barueri)

Procura-se alguém que diga:
“se você morrer, quero morrer também!”

Procuram-se mãos dadas
e sílabas caladas
num olhar de praça de domingo
sem ter o que fazer.

Procuram-se primeiras vezes
e desvios na rota do trabalho.
Entregar as rosas vermelhas
roubadas daquela vizinho
que fura a bola dos meninos.

Procura-se sabor morango
sorvete derretido
de tanto só olhar,
de tanto só falar de amor.

CRiga.

terça-feira, 17 de março de 2020

Bairro


Havia muitos quarteirões,
mas o trajeto automático da bicicleta
era sempre aquele quadrante exato
a rua exata, aquela casa.

Uma vez descemos a rua
mãos dadas, eu olhava pro asfalto.
Outro dia a consolei lá embaixo
dedinho machucado pelo rolimã.

Mas eu tive de mudar, tristeza,
atravessava bairros pra ver a menina.
E ela não sabia (ou fingia não saber)
por que tanto eu caminhava.

Um dia chamei a menina de “beleza”,
coisa de criança, correu atrás de mim.
Fui embora, vergonha, demorei pra voltar,
sofri as dores de moleque com saudades.

Paixão de infância falou mais alto
e voltei,
mas a casa vazia me esvaziou...
“Foi embora... pro Rio, parece...”,
disse uma amiguinha, olhos sem atenção.

Desde então cresci, vários amores.
Cresceram também as casas,
sobrados e edifícios.
Semáforos, contramão, buracos e desvios.
Tudo ficou difícil.
Tudo ficou proibido.

Estes dias passei por lá de carro,
e meu filho mal deu bola
à minha história de primeiro amor.

CRiga.


segunda-feira, 16 de março de 2020

Ampulheta


Observo e desejo ondas
apenas ondas que vão e vêm.
E não percebo que a areia
praia da juventude
um dia acaba cedo demais.

CRiga.

sábado, 14 de março de 2020

A pressa, a angústia


A pressa te deixa presa fácil.
O velhinho anda na calçada,
a criança brinca no parque.
Teu ritmo é teu, o mundo não gira
pra parar na tua urgência.

Certo dessa forma apenas
é o envelhecer mais cedo,
é a birra procurando bronca.
Tua pressa só vai te jogar mais rápido
na boca do pombo da praça,
no inferno da doce amarelinha.

CRiga.