sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025


 

O Lado Negro da Lua Cheia

 


Há uma agulha viva que desfila quase fincada
Profunda na veia violeta.

Arranha leve e sorrateira o negro corredor
De graves e agudos num som limpo e lindo
Feito folha que cresce imponente na primavera.

Um contato veludo que bate direto na caixa do teu peito
Vibra no corpo inteiro em força e muito mais viva
Aquela tua velha canção guardada
Numa fila de sentimentos diferentes em ordem alfabética
Na parte de baixo da estante que um dia você herdou.

E quando você pensa que o mundo acaba
Num vocal que desafia até caleidoscópios
Você vira o lado da vida que suplica um som
E continua no baixo esperando gritar o refrão.

Para Eliseu

CRiga.



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025


 

Música francesa

 


A moça canta tão doce
Palavras que não sei –
Covardia é discutir amor
Com uma cantora francesa.

Triunfo nem Eiffel
Nada rima sobre o papel que assumo.
Lábios em bico pronunciam erotismos.
Olhares furtivos me convidam à alcova.

A moça canta tão segura
Tudo o que quero imaginar –
Varia entre Notre-Dame e uma cruz
E os becos charmosos da Cidade Luz.

Sob o arco ou a torre
A rima pobre é barco ou porre.
Covardia é faltar elegância pra te cantar
E enrolar as línguas num idioma só.

CRiga.



terça-feira, 11 de fevereiro de 2025


 

Eu sou um velho palhaço

 


Muitas já foram as histórias de palhaços apaixonados. Aqueles que já sem a maquiagem vão à porta do circo esperar a amada, que passa lotada dizendo “que palhaço idiota”. E assim nasceu a lágrima desenhada junto à tinta colorida de um rosto que preferirá sempre esconder a dor.

Eu não espero que você me ame. Pra ser sincero, nem que você ria. Tentei ser mágico só pra poder usar smoking preto, mas o coelho da cartola mordeu meu dedo e riram de mim do mesmo jeito. Tentei acrobacias no ar, caí na rede e depois, de ricochete, no chão de pó de serra. Até o leão nem se moveu quando fui eu o domador.

A dor do palhaço ninguém vê – afinal, a ideia é ver só alegria mesmo. Pobre palhaço, não pode nem se apaixonar! Fora do circo anda de bar em bar, ainda colorido, descolando um trago aqui outro ali, até cair embriagado na sarjeta e crianças chutarem seu traseiro de manhã. Hora de ser sombra.

Minhas rugas não somem mais com a maquiagem. Agora nem minha dor. Meu número no picadeiro mudou – uma tragicomédia que ninguém entende. Ninguém mais ri. Enfadonho espetáculo, eu me equilibro nos minutos e meu olhar vago denuncia a falta de saco de fazer criança rir.

É quando vê o milésimo amor da sua vida lhe sorrindo. Pula, sacoleja, cambalhota, grita. As risadas reaparecem. Ele é o palhaço do cartaz novamente! Vem a sirene, o balde de água na cara, deveria acordar do devaneio incontrolável, mas algo de arte ainda o move. Ou seria amor?

Eu te amo, você não vê nestes olhos? Não, volte pra trás, ainda tenho truques pra te conquistar. Quem é esse rapaz loirinho do seu lado? Porque você tá de mãozinha agarrada com ele? E esse beijo, não era pra ser meu? Volte, mata essa bicha louca do caralho e vem que a gente foge com o alazão do circo!... Sua puta!...

Muitas já foram as histórias de palhaços apaixonados. Poucas aquelas que deram certo. De volta ao camarim de terceira grandeza, dois por dois, um balde d’água e um espelho trincado, já nem mais chora as desilusões de cada noite. O dono do circo lhe dá a mixaria da quinzena e mais uma bronca: “um espetáculo mais esquisito que o outro. Se endireita, seu palhaço velho!”

Eu sou um velho palhaço.

CRiga.




quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025


 

Melodrama

 


Eu queria, podia
Te dar aquelas flores.

Mas nada mais me resta
A não ser a festa do meu silêncio
Sempre te dizendo adeus.

À sua procura
Visitei túmulos de poetas que morreram jovens
As costas nuas nas paredes úmidas das tavernas.

Fui ao diabo com flores e dores de amor
Ele sorriu e abriu o portão pra eu voltar.

Eu te daria flores, eu queria
Poder ser triste pra ser sincero um dia.

Eu ainda espero estatelado sentado à calçada
Com aquela margarida
Naquela rua se essa rua fosse agora
Fosse minha, fosse nossa.

CRiga.




terça-feira, 4 de fevereiro de 2025




 

Tristeza

 


Desfila sorrateira
Às vezes montada no cavalo
Do duro monumento no Ibirapuera.
Ou estampada nos olhos do anjinho
Da cafona fontezinha do bulevar.

É uma respiração profunda
Tentando dar ritmo ao dia
E ao coração cansado.

Câmera lenta, você tenta engolir,
É café amargo amanhecido.
Um drama de atores sem fama,
Uma cama que não quer te largar.

Pousa nos teus ombros as mãos pesadas
Enquanto em frente a um computador
Você se pergunta como se deletar dali.

Marca com as unhas pretas por dentro do peito
Feito prostituta velha, bruxa fedida.
Gata preta no cio te gritando
Lá no fundo da cabeça que pesa bigornas.

Beija sabor sangue, congela o estômago,
Amarga a garganta, chuta os testículos. 

Sopra um vento polar na nuca,
Parece que nunca existiu verão.

CRiga.