segunda-feira, 30 de junho de 2025


 

TEENAGE FANCLUB - “BANDWAGONESQUE”


Outro disco que comprei no escuro apenas por conta da crítica muito positiva da Bizz. E, de fato, foi o disco que colocou o TF no mapa do rock indie mundial. Na primeira audição, já me apaixonei pelo disco e estilo – guitarronas pesadas e uma melodia bleatleniana. Show! 

CRiga.

Da série "Discos que Marcaram".

Intenções de quermesse

 

Vem que hoje tem fogos de São João
Vinho quente e quentão.
Tem também é muito fogo
Debaixo das saias das meninas –
Por isso é que não sentem frio
Nem os nossos corações partidos.

Mas as intenções são as mesmas.

Uma Maria quer casar
Uma Joana viuvar.
Quando Zé pescar o prêmio
A namorada vai enciumar
Porque a prima da cidade quer ursinho.
Ela tem lindos olhos de um verde
que nem a bandeira do Brasil!

CRiga.




sexta-feira, 27 de junho de 2025


 

DEPECHE MODE - “MUSIC FOR THE MASSES

 

Sempre gostei muito de “Strangelove”, quando ouvia nas FMs no meu tempo de adolescente. Daí um dia ouvi “Never Let Me Down Again” numa manhã chuvosa, no walkman, e me arrebatou, virei fã do Depeche. Depois de “Violator”, o melhor disco dos caras.

CRiga.

Da série "Discos que Marcaram".

Vila Leopoldina

 

Ele não sabia que, entre as suas pernas enquanto sentado no corrimão do cursinho, ela sorria pedindo sua atenção. Ele não sabia que o coração era tão traiçoeiro quanto o tempo, que não curava feridas porra nenhuma. Ela cantava aquela canção do Robert Plant, dizendo que se lembrava dele na hora em que loirão gritava “I burn in love”... Ele sabia inglês, mas não quis saber o que significava.

Anos depois, visitou-a sem culpas de entender. Na verdade sem mais nada – naquele coração cego e surdo por sensatez jazia o vazio de uma tristeza incomunicável, um tempo cinza chuvoso de setembro e um vagar pela cidade e parar na sua casa para um oi.

Almoçou com ela e com a mãe, o almoço do pai falecido. Ela tinha novos discos, e conseguira achar aquele do Terence Trent D’arby, com “Seven More Days”, de um velho comercial de jeans em que o cara ficava um tempão esperando a namorada se vestir, ele num carro conversível, fez sol, fez chuva, e ela sai vestida no jeans perguntando: “demorei?”, e ele responde: “não, acabei de chegar”.

Ele demorou... um namorado viria vê-la amanhã, ele gostava de Beto Guedes e Belchior. Ele não conhecia, mas sabia do “não dá mais” brusco do seu olhar. Ele a conhecia. E ela o conhecia, e sabia que saindo dali ele compraria discos do Beto Guedes e do Belchior. E comprou mesmo.

Ele foi embora não arrependido de ter ido, nem arrependido de ter se feito cego anos antes, nos corredores e corrimãos do cursinho, ou à caminho do ponto de ônibus depois das aulas encerradas tarde da noite. Foi embora arrependido de nunca ter convencido ela que sabia dos olhares pedintes, das traduções, dos códigos tão jovens. Arrependido da insistência em dizer amiga, amiga... Amiga, palavra triste quando se perde um grande amor...

CRiga.



quinta-feira, 26 de junho de 2025


 

NEIL YOUNG - “LIVE RUST”

 

Na sequência da descoberta pelo “Umplugged”, topei com esse na recém-inaugurada Planet Music Megastore, na Rebouças. Arrisquei porque vi que tinha “Like a Hurricane” e “Hey Hey, My My”. Quando em casa botei o CD e veio aquele violãozão e a gaita do Neil, ah....

CRiga.

Da série "Discos que Marcaram".


Intervalo no trabalho

 

Eu procuro na noite de estrelas
Um cometa que disse que viria.
Procuro no dia uma meta
A pista reta do rastro cadente.

Eu espero eclipses, satélites
Processo bits nos vários azuis.
A matéria espoca na tela
Esfarela um quase fim
Ou apenas um dead-line.

É só cair a chuva
Que o sinal também se vai!

Soturno passo a olhar o céu
Saturno perdeu o seu anel?

Perdi a conta na constelação
Este é o sinal que procuro.

Pedi a conta, serei apenas
Astrônomo da poesia.

CRiga.




terça-feira, 24 de junho de 2025


 

THE COWBOY JUNKIES - “BLACK EYED MAN”

 

Depois que conheci a banda pelo “Lay It Down”, topei com esse “Black Eyed Man” e não tive dúvida, comprei. Era bem mais folk (e até country) que o “Lay It Down”, mas no final, hoje, gosto mais do “Black Eyed Man”. Engraçado que depois achei na Bizz uma crítica elogiando pra caramba o disco.

CRiga.

Da série "Discos que Marcaram".

Procissão

 

Destrua os olhos roxos
Querendo esconder pecado
O mais pecado dos pecados
Ousar não ter pecado.

O suor do santinho a caminho
Daquela fontezinha artificial
Não purifica o asfalto caro
Amanhã forrado de santinhos
De campanha eleitoral.

Os fogos do céu são bonitos
Tão bonitos quanto o fogo
Debaixo das saias das meninas.

Não creio em fonte, creio no fogo
Que não mente nos olhos roxos
Que não sente por pecar
E que vive santo, sem machucar.

O pecado mora aqui mesmo
Não precisa procurar ao lado.

CRiga.



terça-feira, 17 de junho de 2025


 

THE CURE - “WISH”

 

Esse a Bizz não deu crítica lá muito boa. Mas tinha “A Letter To Elise” e “Fryday I’m Love”, hits na 89 FM. Disco duplo, arrisquei. Aliás, foi o primeiro disco do Cure que comprei na vida. Daí comecei a perceber que nem toda a crítica da Bizz era palavra de religião. Puta disco legal!

CRiga.

Da série "Discos que Marcaram".

Poesia sem adjetivos

 

Olha nos meus olhos, me descubra
Me desnuda
Mas não bata o martelo –
Meu advogado se chama Tempo.

Sem metáforas ou adjetivos –
Apenas a verdade que sou.

CRiga.

sábado, 14 de junho de 2025


 

PRIMAL SCREAM - “SCREAMADELICA”

 


Li na Bizz: “Esse disco venderá pouco. Seja um dos espertos”. E o vinil era duplo! O único single era a primeira do disco, que tocou na 89 FM – “Movin’ On Up”, que não tinha absolutamente nada a ver com o resto do álbum. Confesso, demorei pra gostar – mas quando peguei gosto...

CRiga.

Da série "Discos que Marcaram".

Uma metáfora chamada Brasil


Eu ando assim como um Brasil
E você sabe como anda o Brasil.
Parece um bêbado discursando pra ninguém na praça
Pendendo pelos lados, ele não cai
E não sai desse caminho torto.

Eu ando assim fazendo metáforas
Porque luto pouco pelo Brasil.
Só louco mesmo pegar o pau da bandeira
Pra com violência afiar a vaidade numa rede social.

O Brasil é grande demais, não cabe na metáfora
Nem apenas num post bem escrito no X.
Eu sou só a pena que boia escrevendo socorro
No céu cinzento, zangado,
Que se chora molha o asfalto me dando carinho
Mas alaga a casa do meu vizinho.

O problema é nosso.
Quem vai largar o pau da bandeira
E apenas estender a mão?

CRiga.


sexta-feira, 13 de junho de 2025


 

MIKE OLDFIELD - “THE SONGS OF DISTANT EARTH”

 

Meu tio Nenê me emprestou o CD: “É o que chamam de New Age, World Music”. “Explicou” do que se tratava, e numa noite depois do trabalho cansativo de office-boy, de férias na escola, pus o CD e apaguei a luz. Que viagem magnífica! Devolvi e comprei outro na sequência.

CRiga.

Da série "Discos que Marcaram".

O amor não vive sem metáforas


Não é sobre acomodar imperfeições.

Nem sempre a expressão de amor
Vem bonita numa cobertura de chocolate.

Há diferentes formas de demonstrar amor.
Há diferentes formas de compartilhar amor.

E nem sempre combina com aquele
Que a gente nem percebeu ter recebido um dia.

Não peça perdão pelo defeito de demonstrar amor
E não peça explicações
Pela forma com que te deram amor.

Porque não é sobre a fórmula correta de amar.

É sobre saber que amor não tem forma
Certidão ou RG.
Não tem site, blog nem IA
Não se encontra assim no Google
Nem na loja de 1,99.

O amor na verdade
Não sobrevive sem metáforas.

Metáforas são as borboletas
Enfeitando as rosas que pretendo te falar.

CRiga.




quinta-feira, 12 de junho de 2025


 

ERIC CLAPTON - “UNPLUGGED

 

Comprei o vinil na Praça da República no dia do meu aniversário, sem ter ouvido nem a ultra versão de “Layla”, que tomou a MTV. Quando coloquei o disco na vitrola, foi uma viagem magnífica no violão do Clapton, nos blues, na voz. Não à toa é um dos discos mais premiados do Grammy.

CRiga.

Da série "Discos que Marcaram".

Namoro

 


(foto de Cauê Rigamonti, 18.03.2018,
Parque Municipal Dom José, Barueri)

Procura-se alguém que diga:
“Se você morrer, quero morrer também!”

Procuram-se mãos dadas e sílabas caladas
Num olhar de praça de domingo sem ter o que fazer.

Procuram-se primeiras vezes e desvios na rota do trabalho.
Entregar as rosas vermelhas roubadas daquela vizinha
Que fura a bola dos meninos.

Procura-se sabor morango
Sorvete derretido de tanto só olhar
De tanto só falar de amor.

CRiga.



quarta-feira, 11 de junho de 2025


 

THE SMASHING PUMPKINS - “SYAMESE DREAM”

 


Na onda grunge dos anos 1990, os Smashing Pumpkins nem eram de Seattle. Mas quando “Cherub Rock” tocou na 89 FM, e eu li a crítica na Bizz, fui correndo comprar o vinil. As guitarras ardidamente pesadas e o vocal fino do mala do Billy Corgan me bem capturaram.

CRiga.

Da série "Discos que Marcaram".

Sem ponto cardeal

 


A nova era já era
E o novo erro é mero acerto.

Não há caminho certo, nem perto.
Aperte o cerco 
Do esterco nasce a rima.

Acerte o ponteiro   
Porque o poeta é certeiro
E sem direção.

CRiga.


quinta-feira, 5 de junho de 2025


 

THE CULT - “ELECTRIC”

 


Conheci Cult ouvindo “Edie” e “Fire Woman” na 89 FM, e adquiri o “Sonic Temple” e também o “Love”. Mas foi numa conversa no trabalho, na ótica Blue Nice, em meio ao cheiro de química da revelação de filmes, que um colega de óculos de aros grossos e pretos, e camiseta preta, me aconselhou: “Então você tem que ouvir o Electric. É puro rock and roll ”. Enfim! 

CRiga.

Da série "Discos que Marcaram".

Eu sou um velho palhaço

 


Muitas já foram as histórias de palhaços apaixonados. Aqueles que já sem a maquiagem vão à porta do circo esperar a amada, que passa lotada dizendo “que palhaço idiota”. E assim nasceu a lágrima desenhada junto à tinta colorida de um rosto que preferirá sempre esconder a dor.

Eu não espero que você me ame. Pra ser sincero, nem que você ria. Tentei ser mágico só pra poder usar smoking preto, mas o coelho da cartola mordeu meu dedo e riram de mim do mesmo jeito. Tentei acrobacias no ar, caí na rede e depois, de ricochete, no chão de pó de serra. Até o leão nem se moveu quando fui eu o domador.

A dor do palhaço ninguém vê – afinal, a ideia é ver só alegria mesmo. Pobre palhaço, não pode nem se apaixonar! Fora do circo anda de bar em bar, ainda colorido, descolando um trago aqui outro ali, até cair embriagado na sarjeta e crianças chutarem seu traseiro de manhã. Hora de ser sombra.

Minhas rugas não somem mais com a maquiagem. Agora nem minha dor. Meu número no picadeiro mudou – uma tragicomédia que ninguém entende. Ninguém mais ri. Enfadonho espetáculo, eu me equilibro nos minutos e meu olhar vago denuncia a falta de saco de fazer criança rir.

É quando vê o milésimo amor da sua vida lhe sorrindo. Pula, sacoleja, cambalhota, grita. As risadas reaparecem. Ele é o palhaço do cartaz novamente! Vem a sirene, o balde de água na cara, deveria acordar do devaneio incontrolável, mas algo de arte ainda o move. Ou seria amor?

Eu te amo, você não vê nestes olhos? Não, volte pra trás, ainda tenho truques pra te conquistar. Quem é esse rapaz loirinho do seu lado? Porque você tá de mãozinha agarrada com ele? E esse beijo, não era pra ser meu? Volte, mata essa bicha louca do caralho e vem que a gente foge com o alazão do circo!... Sua puta!...

Muitas já foram as histórias de palhaços apaixonados. Poucas aquelas que deram certo. De volta ao camarim de terceira grandeza, dois por dois, um balde d’água e um espelho trincado, já nem mais chora as desilusões de cada noite. O dono do circo lhe dá a mixaria da quinzena e mais uma bronca: “um espetáculo mais esquisito que o outro. Se endireita, seu palhaço velho!”

Eu sou um velho palhaço.

CRiga.




segunda-feira, 2 de junho de 2025


 

COCTEAU TWINS - “HEAVEN OR LAS VEGAS”

 

Outro CD que o colega jornalista Marcos Vicente levava ao fechamento do Jornal Notícias às quintas-feiras. A princípio, estranhei a voz angelical de Elizabeth Fraser, mas a cada audição do disco era uma deliciosa descoberta. Etéreo e modernamente gótico. Que disco lindo!

CRiga.

Da série "Discos que Marcaram".

Vila Leopoldina

 

Ele não sabia que, entre as suas pernas enquanto sentado no corrimão do cursinho, ela sorria pedindo sua atenção. Ele não sabia que o coração era tão traiçoeiro quanto o tempo, que não curava feridas porra nenhuma. Ela cantava aquela canção do Robert Plant, dizendo que se lembrava dele na hora em que loirão gritava “I burn in love”... Ele sabia inglês, mas não quis saber o que significava.

Anos depois, visitou-a sem culpas de entender. Na verdade sem mais nada – naquele coração cego e surdo por sensatez jazia o vazio de uma tristeza incomunicável, um tempo cinza chuvoso de setembro e um vagar pela cidade e parar na sua casa para um oi.

Almoçou com ela e com a mãe, o almoço do pai falecido. Ela tinha novos discos, e conseguira achar aquele do Terence Trent D’arby, com “Seven More Days”, de um velho comercial de jeans em que o cara ficava um tempão esperando a namorada se vestir, ele num carro conversível, fez sol, fez chuva, e ela sai vestida no jeans perguntando: “demorei?”, e ele responde: “não, acabei de chegar”.

Ele demorou... um namorado viria vê-la amanhã, ele gostava de Beto Guedes e Belchior. Ele não conhecia, mas sabia do “não dá mais” brusco do seu olhar. Ele a conhecia. E ela o conhecia, e sabia que saindo dali ele compraria discos do Beto Guedes e do Belchior. E comprou mesmo.

Ele foi embora não arrependido de ter ido, nem arrependido de ter se feito cego anos antes, nos corredores e corrimãos do cursinho, ou à caminho do ponto de ônibus depois das aulas encerradas tarde da noite. Foi embora arrependido de nunca ter convencido ela que sabia dos olhares pedintes, das traduções, dos códigos tão jovens. Arrependido da insistência em dizer amiga, amiga... Amiga, palavra triste quando se perde um grande amor...

CRiga.